Rio Grande do Sul

Estiagem

Seca no RS: produção de carne e leite também está em situação de risco

Queda na produção leiteira já alcança 1 milhão de litros, quebra próxima dos 10%; produção de carne também é atingida

Brasil de Fato | Seberi |

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Pastagens estão severamente prejudicadas pela estiagem e a rebrota nao está acontecendo conforme o esperado
Pastagens estão severamente prejudicadas pela estiagem e a rebrota nao está acontecendo conforme o esperado - Divulgação/MPA

Segue o calvário dos camponeses e camponesas do RS nas regiões castigadas pela estiagem que vem se estendendo desde novembro e – pelas estimativas da força tarefa que vem levantando dados e estudando perspectivas – só deve normalizar em final de fevereiro. O Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) emitiu alerta para a situação há cerca de uma semana e vem mobilizando lideranças em suas regionais para monitorar os estragos e consequência. As informações reunidas já abordaram a cultura do milho (matéria disponível aqui), o feijão e os hortifrutigranjeiros (matéria disponível aqui), bem como os reflexos no cenário econômico nacional (artigo opinativo disponível aqui), chegando hoje ao segmento animal, com foco na carne e no leite.

“Cada dia que passa sem que se tomem por parte do Estado e da União as posturas necessárias a propor alternativas de sobrevivência, subsistência e manutenção, sobretudo para os camponeses e camponesas, se avança em um cenário de desespero. É cada vez mais claro que aquele que mais vai sofrer é o pobre, o pequeno, aquele que está constantemente sujeito ao fantasma da fome”, aponta frei Sergio Görgen, dirigente do movimento.

O Sindilat (Sindicato da Indústria de Laticínios do Rio Grande do Sul) emitiu uma estimativa de perda média de 8%, o que já representa um volume de 1 milhão de litros de leite que deixou de ser entregue à indústria. Mas é preciso compreender que essa informação não relata toda a verdade: o segmento está exposto – assim como os demais – às diferenças regionais que apontam para situação agravada em determinadas regiões, como em Soledade, por exemplo, onde pelos cálculos da Defesa Civil, houve queda de 30% da produção do alimento. Este município, a exemplo de outros 42, até o dia 14 de janeiro, já está com decreto de estado de emergência em vigência.

“O leite vinha amargando preços baixos desde 2017 por conta da importação indiscriminada aberta por Temer e que continua ainda hoje, só vindo a reduzir o volume por conta da alta do dólar”, explica Émerson Capelesso, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e diretor de cooperativa leiteira no município de Hulha Negra. “O consumo nacional caiu, o preço ao pequeno produtor está muito baixo, ainda há a questão das normativas rígidas impostas sem o devido apoio, o que significou exclusão de produtores”, enumera Capelesso, citando fatores que há tempos vêm prejudicando a produção de leite praticada pelos pequenos, que agora devido à seca ficam ainda mais expostos e sem capacidade de ação.

 

Milho foi tão prejudicado que não vai servir para ração nem para silagem.

 

Carne

Pequenos Agricultores da região Sul, que dedicam-se à produção de gado de corte em pequena escala voltada para consumo próprio e abastecimento do mercado local, também estão sendo duramente atingidos. A produção de carne familiar ficou praticamente inviabilizada e os pequenos produtores estão lutando para não perder os animais.

“As pastagens de verão e o pasto nativo secaram entre novembro e dezembro”, explica o produtor Leandro Noronha de Freitas, o Ganso, de Encruzilhada do Sul, que faz parte da coordenação estadual do MPA. Segundo ele, o pasto plantado morreu e o pasto nativo ainda não está dando sinais de rebrota. “Perdemos o primeiro ciclo de renda, que tradicionalmente beneficia o pequeno, que é o período anterior às festas de fim de ano, quando os animais já estavam expostos a uma situação difícil e não ganharam peso ideal para o abate”, desabafa.

O gado comeu a reserva que o produtor costuma guardar para o inverno e agora, olhando para o futuro próximo, o produtor questiona com o que vai alimentar sua criação quando o frio chegar. “Vamos acabar perdendo também o segundo ciclo de renda, porque o gado não vai engordar contando só com a pastagem nativa. Até a possibilidade de fazer um plantio de milho para silagem está comprometida porque agora entra no risco de ali na frente ficar exposta à geada”, acrescenta.

 

Governo

Enquanto os pequenos sofrem diariamente com os efeitos da estiagem prolongada, vendo vez ou outra uma precipitação de chuva acontecer em pontos isolados – o que fundamenta a ideia da “seca verde”, pois dá a falsa impressão de recuperação para quem olha de fora – não se observa medidas práticas da parte dos governos Estadual e Federal. Diariamente aumenta o número de municípios em estado de emergência por conta das perdas na agricultura e pecuária, mas da parte dos governantes, até o momento, só se ouviu falar em reuniões e intenções. Quase nada de medidas práticas para amenizar as perdas daqueles e daquelas que estão com sua atividade econômica e com a própria subsistência ameaçadas ou comprometidas.

Uma das consequências desta situação e da falta de ação dos governos é que o preço da carne vai continuar alto e o preço do leite vai subir para o consumidor final, sem que necessariamente seja uma saída para o produtor, piorando a vida de quem vive na cidade. Nesta quarta-feira (15), o número de municípios que declararam situação de emergência subiu para 50, contudo estão encontrando bastante resistência em ter a condição homologada pelo governo estadual.

Edição: Marcelo Ferreira