Coluna

Lar dos Idosos e Casa da Juventude

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"Quinta, 13 de fevereiro, o Papa Francisco recebeu Lula no Vaticano, reconhecendo-o como um perseguido político, como outros tantos na história brasileira e latino-americana" - Ricardo Stuckert
Ninguém tem medo de enfrentar o poder ilegítimo ou autoritário, esteja onde estiver

Semana gloriosa essa, nesse ainda início de 2020.

Domingo, 9 de fevereiro, Petra Costa, vestido vermelhíssimo, equipe usando bonés do MST, indígenas de cocar na cabeça, e seu Democracia em Vertigem escancararam para o mundo, na solenidade do Oscar, a democracia em frangalhos no Brasil, mostrando que, apesar dos golpes, o Brasil e o povo brasileiro estão vivos e resistem.

Segunda, 10 de fevereiro, o Partido dos Trabalhadores comemorou seus 40 anos, feito inédito num país onde partidos não sobrevivem, ainda mais partidos populares e de esquerda. O PT de Venâncio Aires, minha terra, fez reunião comemorativa e preparatória às importantes eleições municipais de outubro.

Terça, 11 de fevereiro, o Papa Francisco lança AMAZÔNIA QUERIDA, a Carta resultado do Sínodo da Amazônia, abraçando a Amazônia, as e os amazônidas, e dizendo ao mundo que estamos em tempos de ecologia integral. Diz o Papa: “Aos empreendimentos, nacionais e internacionais, que prejudicam a Amazônia e não respeitam o direito dos povos originários do território e sua demarcação, à autodeterminação e ao consentimento prévio, devem receber o nome que lhes corresponde: injustiça e crime.”

Mais: “Sonho com uma Amazônia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida, sua dignidade promovida. Sonho com uma Amazônia que preserve a riqueza natural que a caracteriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana. Sonho com uma Amazônia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas. Sonho com comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazônia que deem à Igreja rostos novos com traços amazônicos.”

O mesmo Papa Francisco, em declaração no dia 7 de fevereiro, na preparação do Encontro do Pacto Global da Educação, a acontecer em Roma no mês de maio, em cuja convocação ele propõe o Humanismo Solidário, disse: “Desejo, neste momento, prestar homenagem aos professores – sempre mal pagos -, porque diante do desafio da educação, eles vão adiante com coragem e perseverança. Eles são artesãos das gerações futuras. Portanto, no novo pacto educativo, a função dos professores deve ser reconhecida e apoiada por todos os meios possíveis.”

Na mesma terça, dia 11, na Vila Santa Emília, minha comunidade e da família, Venâncio Aires, aconteceu reunião de preparação do vigésimo Encontro das Sementes Crioulas, promovido pela Diocese de Santa Cruz do Sul, a realizar-se em 20 de agosto no Ginásio Luizão: resgate e preservação das sementes crioulas, apoio às políticas e práticas agroecológicas e defesa do meio ambiente e de uma alimentação adequada e saudável.

Quinta, 13 de fevereiro, o Papa Francisco recebeu Lula no Vaticano, reconhecendo-o como um perseguido político, como outros tantos na história brasileira e latino-americana, falando sobre a desigualdade e a questão ambiental, e reconhecendo seu compromisso no combate à fome e à miséria, com os direitos dos mais pobres, seus esforços pela paz, igualdade e democracia.

Nesta segunda semana de fevereiro, a greve dos petroleiros estendeu-se por todo Brasil, pelos direitos dos trabalhadores, contra as privatizações do Estado mínimo e do mercado absoluto, pela soberania.

Com término no domingo, 9 de fevereiro, a Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política esteve reunida em Manguinhos, município de Serra, Espírito Santo, a 200 metros da praia, numa rua com o significativo nome de Borboleta Amarela. Éramos 20 pessoas abrigadas em duas casas a poucos metros do mar, que apelidei, uma, de Lar dos Idosos – onde se abrigavam alguns dos fundadores do Movimento, há 30 anos atrás, em 1989, - e a outra, Casa de Juventude, os que vieram no decorrer do tempo, inclusive, e principalmente, vários jovens. Como ninguém é de ferro, a programação de cada dia previa: “Até 9h30m – tempo para oração pessoal, praia, banho e café da manhã.”

A conjuntura não está nada fácil. Por isso, mais que justo que, junto às densas reflexões e necessárias decisões, no alvorecer de 2020, houvesse tempo para praia, descanso. Na última noite, sábado, dia 9, sob um lindo luar, aconteceu a celebração dos 70 anos de Cláudio Vereza, membro fundador do Movimento, militante social, ex-deputado estadual, com cachaças capixabas, quitutes e a festa da vida.

O Lar dos Idosos e a Casa da Juventude conviveram muito bem, seja nos momentos das vaquinhas para o vinho e a cerveja, nos banhos, quanto nas densas reflexões sobre uma espiritualidade sócio-política libertadora e o que se exige do Movimento Fé e Política na conjuntura. A experiência acumulada dos mais idosos e a vitalidade da juventude juntaram-se à necessária coragem profética de todas e todos nestes tempos bicudos (Contatos e informações em: www.fepolitica.org.br).

Ninguém tem medo de enfrentar o poder ilegítimo ou autoritário, esteja onde estiver – governos, igrejas, sociedade - e anunciar a democracia e o Bem Viver. Os tempos são de luta, conscientização. Os tempos são de fé e política, seus valores, na ação profética e transformadora. Tudo isso aconteceu nas primeiras semanas de fevereiro, embalados pelo hino Coração Civil, cantado no sábado dia 9, em Manguinhos: “Quero a utopia, quero tudo e mais/ Quero a felicidade dos olhos de um pai/ Quero a alegria, muita gente feliz/ Quero que a justiça reine em meu país/ Quero ser amizade, quero amor, prazer/ Quero nossa cidade sempre ensolarada/ Os meninos e o povo no poder, eu quero ver.”

Edição: Katia Marko