Rio Grande do Sul

Eleições 2020

A Cidade que Queremos conversa com candidatos de municípios da Costa Doce

Nesta edição, foram convidados representantes de candidaturas às prefeituras de Barra do Ribeiro, Tapes e Camaquã

Brasil de Fato | Porto Alegre |
Confira os principais temas debatidos e assista à entrevista completa - Reprodução / Arte sobre foto de Letícia Chimini

Dando continuidade aos debates sobre as eleições municipais de 2020 no Rio Grande do Sul, sob uma perspectiva do campo da esquerda, o Brasil de Fato e a Rede Soberania convidaram candidatos de municípios da Costa Doce para conservar sobre As Cidades que Queremos.

A Costa Doce é a região conhecida pelos municípios que integram a costa da Lagoa dos Patos. Está localizada entre as regiões Sul e Centro-sul do estado, contornando o maior complexo lagunar da América Latina. Além da Lagoa dos Patos, também chamada pela população local de “mar de dentro”, estão localizadas na região as lagoas Mangueira e Mirim. É da proximidade com toda essa quantidade de água que deriva o nome que apelida toda a região: “Costa Doce”.

A região é muito forte em termos de agricultura e pecuária, com muitas pequenas propriedades disputando espaço com enormes latifúndios, principalmente da monocultura do arroz irrigado e do eucalipto. 

A área, por onde passa a BR-116, tenta desenvolver bastante o potencial do turismo, principalmente o regional. Segundo estudo concluído pelo governo do estado em 2014, mais de 80% dos turistas que visitam a região são gaúchos, fato potencializado pela região se configurar como uma passagem entre a região Metropolitana da Capital e o Extremo Sul do estado, bem caminho para o Uruguai e a Argentina.

Os convidados desta edição são candidatos em três municípios da região: 

Rudinei Menegotto (PT), candidato a prefeito de Barra do Ribeiro;
Leonardo Petry (PDT), candidato a vice-prefeito de Tapes
Renato Nogueira (PDT), candidato a vice-prefeito de Camaquã

A cidade de Barra do Ribeiro é a mais próxima de Porto Alegre, originalmente fazendo parte da Capital. Teve origem em uma charqueada construída à margem do encontro do arroio Ribeiro, que atravessa todo o município, com o Guaíba. Foi nomeada em princípio de Charqueada do Ribeiro, perdendo o “Charqueada” e recebendo o nome de “Barra”, posteriormente, em 1959.

Cerca de 100 km mais ao sul fica localizada a cidade de Tapes. Toda a região foi habitada por indígenas e, na cidade, existe a discussão sobre a existência ou não de um grupo indígena com este nome. Porém, sabe-se que existiam muitos indígenas na região, provavelmente atraídos à áreas alagadas que oferecem abundância de água e terras próprias para diversos plantios. Este mesmo motivo atraiu também os imigrantes açorianos, principalmente a partir do século 19, o que deixou marcas de arquitetura em moradias e nas cidades.

Características estas muito parecidas com as que podem ser encontrados na história de Camaquã, cerca de 130km distante de Porto Alegre. As três cidades, juntas, compreendem uma região com cerca 100 mil habitantes.

Confira a live completa e um resumo com as principais ideias de cada candidato sobre as cidades e a região como um todo.

Geração de emprego e renda

Leonardo Petry – Eu acho que nós temos que nos integrar, o desenvolvimento na região não vem só para um município ou outro, nós nos desenvolvemos de forma regional. Acho que temos que fazer isso dentro da nossa característica da agricultura e da pecuária, que em Tapes é feita de forma extensiva, principalmente do arroz e da soja. Este tipo de agricultura não tem atendido às expectativas de emprego para as pessoas. A minha atividade é ligada a agricultura e por isso me chama tanta a atenção. E eu tenho muito orgulho, aqui nós temos a Cooperativa de Produção Agropecuária dos Assentados de Tapes (COOPAT). Estas pessoas se integraram muito com a economia de Tapes e hoje conseguiram o selo de produção orgânica, onde tudo que eles produzem tem essa certificação, desde a carne, hortaliças, frutas, etc. Isso tem me levado a pensar na possibilidade de constituir Tapes como uma “cidade orgânica”, tenho pensado com outras pessoas essa ideia.

Temos também aqui o nosso mercado público, que foi reformado com recursos do Banco Mundial, e a demanda da alimentação escolar, cerca de metade dela já produzida por esses pequenos agricultores. Podemos fazer um link com esses produtores e com os assentados, trabalhar juntamente com um selo orgânico regional, pode ser um caminho a ser desenvolvido através do município e da região como um todo. Podemos ter esse atrativo além da nossa lagoa e do nosso turismo, como potencializador do emprego e da renda.

Renato Nogueira – É fundamental a gente pensar a Costa Doce de uma forma regionalizada. É verdade que Camaquã acaba se formando como um centro regional para esses municípios, e podemos potencializar a geração de emprego e renda de forma que não seja predatória, respeitando as possibilidades de cada um. Claro, Camaquã acaba sendo um polo por reunir serviços e isso trás possibilidades específicas. Queremos potencializar o polo moveleiro, que vai desde as pequenas marcenarias até as grandes empresas fabricantes. Queremos também nos tornar um polo logístico, o que dependeria da duplicação da BR 116, o próprio SENAC vêm estudando. Temos também o Instituto Federal, que tem um polo tecnológico que pode ajudar a suprir a demanda de empregos. Queremos também utilizar da agricultura familiar, que também é bastante forte no município. É um objetivo nosso também fortalecer o turismo regional, de eventos e esportivo.

Rudinei Menegotto – Temos trabalhado muito, principalmente no interior do município, a questão da na agricultura familiar, que praticamente inexiste no município. Queremos auxiliar na construção de cooperativas e agroindústria, trazer gente com tecnologias para ajudar nesse processo. O município é um grande produtor de batata-doce, por exemplo. Mas tudo que produzimos vai direto para Ceasa, não transformamos nada aqui.

Queremos potencializar o turismo da região também, tentar mudar a característica que temos, que hoje é de um turismo que chamamos de predatório. As pessoas vêm aqui aproveitar a praia e não deixam nada para o município. Queremos potencializar outras possibilidades, para que as pessoas deixem mais recursos por aqui. Estamos estudando por exemplo, os passeios de barco pela lagoa e o transporte hidroviário entre Porto Alegre.

Estamos também ajudando na constituição de uma cooperativa de pescadores, a pesca é muito forte na região. Eles precisam de pontos de venda e estamos ajudando nisso, tentando providenciar a produção de filés de peixe e conectando com a produção de ração animal, que também existe no interior do município.

Saúde

Leonardo Petry – Estamos completando 16 anos na gestão do município. Eu já passei pela prefeitura e pela câmara e posso afirmar, quando assumimos a gestão, a saúde daqui era um caos. Desde então, não houve um ano em que investimos menos do que 20% do orçamento em saúde, chegando a quase 30%, nossa estrutura melhorou muito. Nós tínhamos dois postos de saúde, agora temos um hospital, temos investindo na saúde mais do que o mínimo que determina a Constituição. Temos também uma boa estrutura de servidores na assistência social, que, junto com a rede da educação, traz muito bons resultados.

Ainda sobre a questão da integração, nós íamos receber a doação de um mamógrafo para a região, que nós negamos, pois a estrutura da cidade não poderia utilizar tal equipamento, que nós mandamos para Camaquã, onde há o hospital. Sobre os leitos de UTI que foram implantados por causa da pandemia, queremos que esta estrutura continue na cidade e seja reutilizada.

Renato Nogueira – Uma das bandeiras que temos é a constituição de um Escritório Regional de Desenvolvimento, que tenha uma conexão com Brasília para defender os nossos interesses, ao exemplo do que fazem os municípios da Serra gaúcha. Isso está ligado com a questão da saúde. Temos que nos unir na região para manter as UTIs implantadas durante a pandemia e fazer daqui um polo regional de saúde.

A situação da pandemia evidenciou a necessidade de um estado forte que foi pouco aproveitada pelo governo federal. Logo, pouco mais de 30 dias do começo da pandemia nós perdemos o ministro da Saúde. Quem planificou o atendimento em saúde foram os governadores, dando um norte e mantendo a transparência das informações. Toda essa situação evidenciou a importância do SUS, do contrário, seríamos igual aos Estados Unidos, onde muitos morreram por não poder pagar.   

Rudinei Menegotto – A questão da saúde aqui na Barra sempre foi muito crítica, o hospital que tínhamos foi fechado há muito tempo atrás. Estamos também há muito tempo aguardando a construção de um hospital que está em andamento. Segundo as nossas contas, é uma construção superdimensionada, terá quase 50 leitos, muito mais do que precisaria a nossa comunidade. Quando tivemos a nossa gestão até 2008, conseguimos deixar aberto pelo menos os exames de imagem, que também foram fechados para serem reabertos somente na última gestão. Hoje nós sequer temos um hospital de referência, os plantonistas passam muito trabalho, pois chegam pacientes ao pronto atendimento, os profissionais da saúde têm que ligar para os hospitais da região para encontrar uma vaga.

Colocando junto do assunto da saúde o debate do meio ambiente, nós deixamos funcionando uma cooperativa de reciclagem de lixo que funcionou muito bem durante um tempo e que por descaso foi fechada. Aqueles equipamentos que conquistamos, estão hoje atirados. Nós temos o compromisso de, no primeiro mês de gestão, reabrir a cooperativa, gerando emprego e renda. Cuidado ao meio ambiente também é saúde, além do que, atualmente, pagamos mais de R$ 100 mil para levar nosso lixo para Minas do Leão.

Educação

Renato Nogueira – Nós vimos neste, momento de pandemia, a grande diferença digital que existe no nosso país. A escolas privadas por exemplo, puderam dar continuidade às suas atividades, enquanto o ensino público ficou prejudicado. E não foi por falta de esforço dos professores, foi por uma defasagem tecnológica. Nós vamos ter que lidar com isso, pois vamos ter que continuar pensando no ensino híbrido, vamos ter que garantir internet para os alunos para poder democratizar o acesso à educação.

Também queremos debater a democracia interna das escolas, achamos que a comunidade tem que participar das escolhas de diretor. As direções das escolas tem que estar ligadas à sua comunidade, não estar subserviente à Secretaria de Educação.

Rudinei Menegotto – Na nossa gestão nós tínhamos a Educação de Jovens e Adultos (EJA), que também foi extinta. Nós temos o compromisso de retornar com o EJA e com a democracia nas escolas. Outra questão é a informatização das escolas, bem como dos postos de saúde, isso é uma questão urgente para nós.


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Edição: Marcelo Ferreira