Rio Grande do Sul

Coluna

O Nordeste que nos Inspira e a Resistência para dançarmos nosso Xote da Alegria

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"Um diferencial do grupo Falamansa é o que traz Tato que, além de vocalista da banda é violonista e com seu instrumento, toca de um jeito bem particular" - Divulgação
Ao completar 20 anos, Falamansa é mais do que sucesso midiático, é resistência cultural

Foi no final da década de 1990 que entre os jovens se intensificou o desejo de tocar sanfona e dançar forró pé de serra. A cena das bandas que tocavam músicas com características nordestinas nos estados do país crescia cada vez mais, o que dentro da história da música brasileira em diversos momentos, isso já havia acontecido trazendo para o centro das atenções grupos que se juntavam para entoarem suas influências culturais.

A migração nordestina para outras regiões do Brasil, decorrentes de severas secas foi um dos fatores fundamentais para que a música e a cultura do nordeste se espalhasse pelo país, influenciando cada vez mais a juventude que, através do xote, baião, xaxado, maracatu, axé, entre outras, realizavam suas festas animadas e dançantes.

O Nordeste brasileiro tem uma contribuição fundamental em nossa formação cultural, principalmente na música. Muitos nomes que se tornaram representante não só das suas regiões como de todo um país. Luiz Gonzaga, Domingos, João Gilberto, Caetano Veloso, Raul Seixas, João do Vale, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Marinês, Daniela Mercury, Elba Ramalho, entre tantas e tantos artistas que cantaram suas raízes para o Brasil e para o mundo, estiveram no centro das produções e do mercado musical em diversas vertentes da música brasileira. Do Rock ao Samba, do Forró à Bossa Nova, não importava o que se produzia, pois a qualidade, inspiração e criatividade sempre foram marcantes para todos (as) (es) nós.

Nas duas últimas décadas uma nova cena de forrozeiros e forrozeiras começa novamente a ser pautada pelas grandes médias, colocando (mesmo que muitas vezes modernizados) as preces musicais trazidas pelo Rei do Baião como xote, baião e xaxado que contagiaram e, até hoje contagia a população, fazendo de seus bailes um pontos de encontros da juventude.

Chamado de forró universitário e/ou forró pé de serra, justamente por ser consumido em sua maioria por estudantes e universitários, muitos desses jovens optaram não pela pista, mas pelo palco, fazendo da sanfona, zabumba e triângulo seus parceiros inseparáveis no estudo da música e nas inspirações, resultando em belas composições que nos fizeram adentrar o universo musical sertânico.

Um dentre tantos bons grupos, passa a se destacar no mercado fonográfico musical. Com o nome Falamansa, três jovens do Sudeste (Tato, Alemão, Dezinho) mais um experiente sanfoneiro (Valdir do Acordeon) se juntaram, fazendo com os instrumentos tradicionais (sanfona, zabumba e triângulo) o bom forró, mas com sotaque paulista. Acabaram por influenciar toda uma geração.

Um diferencial do grupo Falamansa é o que traz Tato que, além de vocalista da banda é violonista e com seu instrumento, toca de um jeito bem particular (invertido sem inverter as cordas) com uma batida única, conduzindo a linha de frente da banda, cantando e compondo os grandes sucessos que conquistaram o coração do povo brasileiro. Um dos fatos interessantes é que quando a banda surgiu não haviam muitos jovens na época que tocavam sanfona. Essa situação com o tempo foi mudando bastante. Aliás, hoje em dia vemos muitos jovens, homens e mulheres tocando esse instrumento tão marcante na música brasileira.

O grupo Falamansa levou de volta à mídia o bom forró nordestino, mas com jeito paulista de se fazer, abrindo espaço para um grande contingente de grupos que começaram a surgir, fazendo nossos ouvidos se voltarem novamente as canções e autores nordestinos que deixaram registrados a força da sonoridade do sertão com seu resfolego contagiante e bailes inesquecíveis.

Cantaram o amor, a natureza, a alegria, mas também protestaram. Sim, fizeram canções de protesto até porque, a canção de protesto não necessariamente é voltado para as questões políticas institucionais, mas também é feito contra a desumanidade, ignorância, maldade, irresponsabilidade com a sociedade e o meio ambiente, ou seja, contra aquilo que nos afeta de alguma forma enquanto ser social.

Falamansa abordou em Cacimba de Mágoa, parceira com o rapper Gabriel o Pensador, a tragédia de Mariana, o rompimento das barragens e as situações das famílias afetadas por meio de uma canção onde se canta e se dança. E isso já é uma característica, por exemplo, do povo nordestino assim como disse o poeta cearense Patativa do Assaré:

“Eu sou de uma terra que o povo padece

Mas não esmorece, procura vencer,

Da terra querida, que a linda cabocla

Com riso na boca zomba no sofrer

Não nego meu sangue, não nego meu nome,

Olho para a fome e pergunto: o que há?

Eu sou brasileiro fio do Nordeste,

Sou Cabra da Peste, sou do Ceará ...”

Quantos não se identificaram com os versos de Cacimba de Mágoa? Quantas famílias afetadas pela tragédia que abalou o Brasil e o mundo, não se sentiram representadas pela canção onde ecoa através da voz de Tato versos como:

“Quem nunca viu a sorte

Pensa que ela não vem

E enche a cacimba de mágoa

Hoje me abraça forte

Corta esse mal, planta o bem

Transforma lágrima em água

O sertão vai virar mar

É o mar virando lama

Gosto amargo do Rio Doce

De Regência a Mariana…”

Recentemente o grupo Falamansa completou 20 anos de carreira, comemorado em um belo show, lembrando cada um de seus sucessos e, sim, continuam a brilhar para um povo que precisa cantar, dançar e protestar.

Suas canções continuam a tocar os corações de cada um e cada uma de nós. Falamansa é mais do que sucesso midiático, é resistência cultural que continua a deixar sua inesquecível sonoridade por onde passa. A banda mantém a mesma formação de sempre com os mesmos integrantes. É com essa identidade, com essa fidelidade aos que acreditam que faz a banda colocar a digital na história.

Pra que apenas chorar nossa mágoa? Que possamos deixar a agonia de lado e transformar a dor em luta e resistência para sermos o que queremos ser e assim, dançaremos o xote da alegria no nascimento de um novo Brasil. Um Brasil dos brasileiros, das brasileiras, um Brasil de Falamansa, orgulho e alegria de ser quem a gente é.

Você também pode acompanhar a minha prosa musical com Tato do Falamansa no domingo, dia 27 de junho, às 20h pelo youtube Sacada Cultural BR TV.

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* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko