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A presença de Israel na segurança digital no Brasil

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O presidente da ONG Instituto Força Brasil, tenente-coronel da reserva Helcio Bruno de Almeida, depõe na CPI da Pandemia - Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado
A economia de guerra vira uma nova matriz para commodities de alta tecnologia embarcada

A CPI da Covid no Senado Federal avança e cada vez mais aparecem conexões com empresas ligadas à entidade sionista. Na terça, 10 de agosto de 2021, foi a vez do depoimento do tenente coronel Hélcio Bruno Almeida, operador de forças especiais da reserva remunerada do Exército brasileiro. Além de estar à frente do Instituto Força Brasil, ele se apresenta como consultor da empresa Suntech Soluções de Inteligência. O domínio desta empresa, adquirida pelo grupo israelense Verint (daí o nome Suntech/Grupo Verint), se encontrava fora do ar quando da finalização deste artigo. Segundo o perfil no Facebook, a empresa se dedica a:

“Com a expertise de estarmos há mais de 19 anos no mercado, temos em nosso portfólio algumas das soluções mais modernas e eficientes para interceptação legal, retenção de dados e inteligência em comunicações. Nossos clientes figuram entre os maiores provedores de serviços de comunicação e governos, aos quais garantimos segurança, sigilo e alto nível de resultados.

Temos especialização em Mobile Networks, Software Development, Support & Maintenance Services, Communications Intelligence, Intelligence Solutions e Lawful Interception.

Não consta um endereço físico da empresa, apenas um contato com o prefixo 048, indicando que seria de Florianópolis (Santa Catarina). Na página oficial da matriz, a Verint Systems, consta que a Suntech é uma subsidiária formal da gigante de processamento de dados e inteligência artificial. Nas sessões “casos de sucesso” e “parceiros globais”, é notável a envergadura da empresa, cuja sede formal fica em Melville, distrito administrativo do estado de Nova York, pertencente à região de Long Island. Na sessão “escritórios globais”, há uma sede em Israel e também uma subsidiária na Palestina, ocupada em 1948. Trata-se da Focal Info, sem endereço eletrônico divulgado e uma incorporação feita pela Verint em 2012. No centro dessa transação, dois “tubarões do mercado digital e de segurança da informação”, o fundador da Focal, Amit Bohensky e o então executivo da Verint, Meir Sperling.

O modus operandi dessa indústria é o de sempre. A matriz está na entidade sionista e sua economia de guerra e Apartheid sobre o povo palestino. A Ocupação é o laboratório a céu aberto, em que a polícia racista do Shin Bet (para nossos brimos e brimas, Shabak) tem como seu lema “informal” de vigilância a letra da banda inglesa The Police:

“Cada vez que você respira / Cada movimento que você faz / Cada vínculo que você romper /Cada passo que você dá /eu vou estar observando você.

Todo dia / Cada palavra que você diz / Cada jogo que você joga / Todas as noites você fica em casa / eu vou estar vigiando você.

Oh, você não pode ver / Você pertence a mim…A cada passo que você dá / Cada movimento que você faz / Cada promessa que você quebra / Cada sorriso que você finge /Cada reivindicação que você aposta / eu vou estar observando você”.

Mais do que ironia macabra, é a pura verdade. A ocupação e a vigilância, que cometem seguidos crimes internacionais e de lesa humanidade, dão a base de testes para transformar em mercadoria a desumanidade contra o povo palestino. Nada disso é escondido, a começar pela defesa do “escudo invisível” por parte do Shabak.

A economia de guerra vira uma nova matriz para commodities de alta tecnologia embarcada. Na sequência, o financiamento que vem do Departamento de Estado e de Defesa dos EUA – de forma direta ou indireta – reclama parte do investimento e as empresas deixam de estar incubadas em Netanya (Palestina Ocupada), abrem capital (em vultosas operações de IPO) e estabelecem suas sedes em Nova York, San Francisco ou Londres. Há uma governança conjunta, em que os segredos industriais são comutados com o aparato de inteligência eletrônica da superpotência e de Israel, enquanto os códigos fonte vão sendo compartilhados.

A penetração global da Verint é enorme, assim como de outras empresas do mesmo porte. Segundo os dados da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA, operam em mais de vinte países e contam com ao menos cem subsidiárias. Quanto mais estas empresas vendem seus serviços, em escala comercial ou estatal, maior é o poder de penetração, vigilância e antecipação da aliança do Sistema Cinco Olhos (EUA, Grã Bretanha, Canadá, Austrália e Nova Zelândia) e seu membro oficioso, a entidade sionista criada com o pogrom da Nakba em 1948 e a Naksa em 1967.

Hélcio Bruno, os três contratos de consultoria e seu instituto

Nenhuma informação trazida acima é “segredo”, constam em fontes abertas e o mecanismo é tratado como evidência. Todo estudante de Relações Internacionais de terceiro semestre já está apto para fazer esse tipo de interpretação. Por essa lógica, o Alto Comando do Exército Brasileiro deveria saber dos riscos de comprar esse tipo de tecnologia embarcada.

Parece que foi o oposto do ocorrido. Segundo o portal UOL, o tenente coronel teria intermediado ao menos três contratos totalizando ao menos US$ 33 milhões de dólares. Como era de se esperar, o Exército nega a atuação do oficial da reserva como lobista e ele mesmo se apresenta apenas como “consultor”. Os contratos foram assinados e elaborados entre 2018 e 2020, sempre se tratando de aquisição ou ampliação dos sistemas de plataforma da empresa Verint.

Em paralelo, o oficial especializado que foi para a reserva no esplendor da forma física e intelectual, também desenvolveu seu grupo de pressão, através do Instituto Força Brasil. Alvo dos questionamentos da CPI da Covid no Senado, curiosamente, a página oficial da entidade se encontrava fora do ar quando do fechamento desse texto.

A meta estratégica: vetar a presença das empresas do Apartheid no país

O tenente-coronel Hélcio Bruno Almeida não parece ser exceção e sim regra. Tal como o “reverendo” Amilton Gomes, são negócios de Estado através de mecanismos no mínimo “pouco republicanos” que se mesclam com a mão nada invisível do sionismo e seus aliados. Infelizmente fica difícil, praticamente impossível, confiar em oficiais de carreira que deixam o dever no auge da forma física e intelectual para depois se dedicarem a empreendimentos estranhos, pregações negacionistas e campanha protofascista. Imagino estes mesmo militares operando na Heróica Resistência da Operação Espada de Jerusalém e já fico envergonhado.

Sobre os negócios envolvendo corporações que comutam dados com o Apartheid na Palestina Ocupada, bastaria colocar uma “red flag”, uma determinação legal que impede o país com mais de 16 milhões de árabe-descendentes a fazer negócios com o inimigo estratégico, a potência colonial criada por invasores europeus. O mesmo tipo de sanção que o Império estabelece contra países ou forças políticas que apoiam ou fazem parte do Eixo da Resistência. Não seria uma novidade em termos de direito internacional, considerando a experiência do isolamento da África do Sul do Apartheid, algo respeitado até pela ditadura militar brasileira (que apoiou e reconheceu a independência dos países africanos lusófonos). Contemporaneamente, a Anistia Internacional convoca e denuncia empresas que têm negócios “legais” na Cisjordânia ocupada, faturando com o flagelo de milhões de árabes-palestinos. Temos de fazer o mesmo no Brasil e aprovar essa medida como lei federal.


* Este artigo foi originalmente publicado no portal Monitor do Oriente Médio

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** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Marcelo Ferreira