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CINEMA

"Selvagem é um ensaio para a revolução", afirma o diretor do longa Diego da Costa

Em entrevista ao BdFRS, o cineasta fala do filme que se passa nas ocupações secundaristas e do papel da ficção no Brasil

Brasil de Fato | Porto Alegre |
Diego da Costa quer que a juventude saia da sala de cinema com o filme reverberando e pensando em como se organizar para fazer a transformação - Foto: Arquivo pessoal

O longa-metragem Selvagem, dirigido por Diego da Costa, está em sua segunda semana em cartaz nos cinemas do país. Em Porto Alegre, foi exibido na semana passada. O filme conta a história de dois estudantes de escola pública, Sofia e Ciro, que vivenciam as ocupações secundaristas que tomaram conta do Brasil por melhorias para a educação.

O elenco traz a atriz Lucélia Santos e o rapper Rincon Sapiência, e muitos jovens, grande parte negros. Feito com baixo orçamento, ficou entre os 15 filmes cotados para representar o cinema brasileiro no Oscar 2022.

O Brasil de Fato RS conversou com Diego Costa sobre o longa, na intenção de entender as motivações de retratar em um filme de ficção um momento tão importante para a juventude brasileira como foram as ocupações que iniciaram em São Paulo e tomaram conta do país.

Segundo o diretor, a ideia é “trazer para a juventude, não só desse momento atual, mas das juventudes futuras, uma mensagem de que a luta é necessária, de que a ocupação e o diálogo são necessários”.

Na entrevista, Diego apresenta detalhes sobre o processo de construção do roteiro, que teve muita pesquisa e a contribuição de quem foi se somando ao filme durante sua realização. Fala também sobre a trajetória de debates que tem acontecido em escolas e cineclubes pelo país e América Latina, bem como do atual momento do cinema.

Também reflete sobre o papel da ficção no cinema brasileiro, que para ele “traz ideias” que podem no futuro se transformar em ações que mudam concretamente a vida. E revela: “Selvagem é um ensaio para a revolução, é um filme para trazer ideias pra juventude, para que ela assista e saia da sala de cinema com o filme reverberando, pensando na possibilidade deles se organizarem, conversarem uns com os outros e quem sabe fazer uma mudança no futuro”.

Além de fazedor de filmes, Diego é músico. Sócio da Pietà Filmes, dirigiu os filmes Argentino (2011), A Plebe é Rude (2016), Os Caubóis do Apocalipse (2018) e Selvagem (2021). É vocalista e guitarrista da banda Sonora Fantasma e multi-instrumentista no Duo Câmara Sônica. Foi baixista das bandas Nuvens Invisíveis (2011-2013) e Mochila DC (2016-2018).

Confira, abaixo, a entrevista completa:

Brasil de Fato RS - Selvagem é um filme de ficção que retrata a história de jovens em meio às ocupações escolares que iniciaram em 2015 em São Paulo e expandiram-se para todo o Brasil em 2016. Conte para nós a motivação por trás da escolha deste importante momento político da juventude brasileira recente para o filme.

Diego da Costa - Nossa motivação inicial foi tratar não só daquele que a gente considera o movimento político mais importante da década passada, mas também trazer para a juventude, não só desse momento atual, mas das juventudes futuras, uma mensagem de que a luta é necessária, de que a ocupação e o diálogo são necessários. E de que há espaço para a juventude, é preciso ser conquistado, mas esse espaço existe.

O Vinícius Cabral, que é o principal roteirista do filme, e eu, a gente sempre quis escrever sobre a escola pública brasileira. Os norte-americanos fazem muitos filmes sobre a escola deles e a gente acaba reproduzindo muitos hábitos deles.

A gente já tinha interesse em fazer um filme sobre juventude, já estávamos escrevendo um filme sobre Ciro e Sofia, que era um casal adolescente. Mas assim, vivendo uma vida adolescente, com hormônios à flor da pele, amores, paixões, tristeza, raiva, sem saber direito o que é. Tinha um contexto de escola pública, mas não era assim. Aí no meio da escrita as ocupações vieram, e foi aí que a gente juntou a história de Ciro e Sofia e as ocupações dos secundaristas.

BdFRS - Você teve alguma vivência com estudantes de escolas ocupadas? De que forma a experiência dos estudantes contribuiu para a produção do longa?

Diego - Eu não tive vivência com os estudantes durante as ocupações, foi algo muito pontual o nosso apoio, mas não uma convivência. Depois, na pesquisa pro filme a gente assistiu muitos documentários, lemos livros, fizemos uma série de pesquisas voltadas para o que foram as ocupações, e passamos a conversar bastante com os jovens que ocuparam. Inclusive, no filme, no elenco, tem a Jade, que é uma baita atriz que foi uma liderança nas ocupações. Também tivemos contato com pessoas que não puderam ocupar porque os pais não deixavam, ou podiam ir, mas não dormir, e a gente trouxe um pouco das nossas experiências para além das ocupações dos secundaristas.

Um amigo meu, Henrique Cartaxo, estava trabalhando com os Jornalistas Livres e ficou preso durante a entrada da escola Fernão Dias, junto com os alunos, porque eles ocuparam e logo a polícia cercou - foi a escola que ficou mais famosa. Ele estava lá dentro e passou dois ou três dias filmando intensamente tudo. É um material que ainda não foi lançado, espero que algum dia seja porque mostra mesmo que os estudantes estavam com uma vontade de melhorar tudo. Isso foi uma base muito grande pra criação do filme, graças ao material que o Henrique disponibilizou e a gente assistiu.

Além de todo o resto que teve, quando a gente foi fazer a pesquisa de locação e de elenco, a gente não trabalhou com produtor de locação como o cinema hegemônico faz, eu mesmo e a diretora de arte que fomos atrás das escolas. E o nosso produtor de elenco, que é o Igor Veloso, ele não é um produtor de elenco tradicional do cinema hegemônico, ele é um ator do Teatro do Oprimido, então a gente fez uma pesquisa junto às escolas, conversou com diretoras e diretores, com professores e com alunos, e tudo isso foi sendo incorporado no roteiro, sendo assimilado, e transformou o filme na obra que ficou no final.

Inclusive cada ator, cada pessoa do elenco que entrava trazia ideias novas, propostas, e isso foi tudo incorporado no roteiro.


Cartaz oficial de Selvagem / Foto: Divulgação

BdFRS - Chama atenção, com relação às escolhas de elenco e arte, a presença de muitos atores negros, bem como a ambientação nas escolas e residências. Comente sobre como essas escolhas foram se efetivando.

Diego - A gente tem pensado muito na representatividade brasileira, então trabalhar pelo menos com 50% de atores negros nos filmes, essa é uma escolha. E a gente pensou nessa escolha de um casal de adolescentes negros se amando, que era uma questão muito forte pra gente, porque o Rincon Sapiência tinha lançado Galanga Livre, que é uma questão muito forte do álbum dele. E o Igor veloso, nosso produtor de elenco, trouxe essa questão também. A gente assumiu isso e tem sido muito fortuita essa escolha.

A ambientação na escola e nas duas casas, a gente reduziu ao máximo as locações, porque é um filme com 10, 20 vezes menos orçamento do que outros filmes. Por ter um orçamento tão abaixo do que se pratica no Brasil, dentro do cinema hegemônico, a gente teve que pensar muito estrategicamente em como fazer.

A gente tem pensado muito na representatividade brasileira, então trabalhar pelo menos com 50% de atores negros nos filmes, essa é uma escolha

As casas, e também por ter esse pensamento da estética do Augusto Boal, do Teatro do Oprimido, e de ter se baseado muito em Paulo Freire, a gente não queria tratar as ambientações como geralmente se faz nos sets de filmagem. Você vai, usa o espaço, devolve e acabou, não cria nenhuma relação. Pelo contrário, a gente ouviu as demandas da escola, ouviu as demandas dos moradores. Gravamos em duas casas na ocupação Nove de Julho, com apoio da Preta Ferreira. Então foi uma troca.

Uma das demandas da escola é que ela era muito cinza e eles queriam que fosse mais colorida, então a diretora de arte chamou o Enivo, as Gordinhas, outros grafiteiros, o Tche, para colorir a escola ao longo do filme. Então você vai vendo que o filme vai ficando mais colorido, de uma forma sutil, mas vai.

As casas, a direção de arte também bateu com os moradores quais eram as necessidades que eles tinham, se queriam um sofá, se queriam um móvel diferente, e as compras que a gente fez pro cenário ficaram para os moradores. Então as escolhas foram também nessa base de troca, assim como a gente fez no roteiro junto com os jovens e tudo mais.

BdFRS - Muito fala-se em furar a bolha, quando da necessidade de atingir públicos para além daqueles envolvidos em certas questões. O filme tem alguma intenção neste sentido, de furar a bolha com relação ao movimento estudantil?

Diego – Sim. É claro que o nosso público principal são os jovens, a gente quer que a juventude se reconheça e não fazer um filme de adolescentes para adultos. Então é um filme para eles, mas ao mesmo tempo a gente quer fazer um filme para toda a família, digamos assim né. A gente conta a história de Ciro e Sofia, que não são jovens que o cinema hegemônico tradicional colocaria - que carregam Marx debaixo do braço e sabem tudo o que querem da vida. Não, eles são adolescentes reais, eles têm dúvidas, e são as dúvidas que motivam eles.

Da mesma forma que, quando a gente coloca os agentes opressores, a gente coloca camadas neles. O pai da Sofia, por exemplo, ele é um cara que acredita naquilo que a mídia hegemônica diz. Ele quer impor certas condições para a filha dele, mas, ao mesmo tempo, ele tem uma preocupação em qual vai ser o futuro dela. Então a gente fez um trabalho para que famílias possam assistir, professores. Temos feito muitas sessões com debates, e vemos que realmente a juventude entende muito o filme, se reconhece muito, mas a gente tem visto que adultos entendem muito bem o filme também, professores, artistas, famílias e tudo mais.


Diego conversando com Kelson Succi, que interpretou Ciro / Foto: Arquivo pessoal

BdFRS - Passados alguns anos das ocupações, o país vive um trágico período no que diz respeito à educação. Na tua avaliação, qual o legado deste movimento atualmente?

Diego - Eu acho que apesar de não estar tão latente, tão evidente, existem alguns legados que os jovens deixaram. Apesar de muitos terem sido perseguidos, terem suas vidas acadêmicas comprometidas, sonhos comprometidos, alguns chegaram a faculdades, têm feito cursos e pensado o futuro de suas carreiras pensando na coletividade.

A gente sente que teve uma grande mudança estética com relação aos próprios corpos, a se gostar, se amar, se cuidar, em relação ao autocuidado. Porque as novelas e o cinema hegemônica trazem o biotipo padrão loiro de olhos azuis e pessoas extremamente magras, dentro de um padrão imposto de beleza. Isso foi diferente e também as ideias latentes de que os espaços públicos são de todos, todos podem opinar e transformar de alguma forma os espaços. Isso pode não estar tão forte agora, mas, com certeza, essas ideias e muito disso tá reverberando ainda na juventude.

BdFRS - Filmes ambientados em escolas são tradicionais no cinema norte-americano consumido em todo o mundo. Esta obra explora o ambiente escolar, mas traz fortemente a questão social - característica marcante em alguns filmes nacionais de sucesso. Nesse sentido te pergunto: qual o papel da ficção numa sociedade como a brasileira?

Diego - Pois é, os norte-americanos fazem muitos filmes de escola e a gente precisa fazer mais filmes sobre a nossa escola. Mas não da escola particular, da escola pública. Quem viveu a escola pública sabe como funciona. Então é preciso fazer isso, existem muitas escolas públicas, cada lugar é de um jeito. Mas quem assiste Selvagem e estudou em escola pública entende o filme. A gente precisa cada vez mais ter filmes que tratem da nossa história, não ficar só assimilando a história do cinema hegemônico. É legal que ela exista, mas que ela exista coexistindo com a nossa, é preciso que nossa história seja importante para os brasileiros. Conhecendo a nossa história, fazendo a nossa história, não deixando que outros contem, é o primeiro passo para mudanças.

Eu acho que a ficção brasileira tem um pouco esse papel, é inevitável a gente não falar de política no nosso cinema, porque a gente é um país em que as pessoas sofrem muito, estamos sendo empobrecidos, estamos sendo mortos. A gente não tem muita saída, e as ficções têm um poder de trazer ideias. É como Augusto Boal dizia lá atrás no Teatro do Oprimido, a peça é um ensaio para a revolução, e eu digo isso de Selvagem.

A gente precisa trabalhar mais sobre a chave das utopias realizáveis. Então as vezes algo pode parecer que é impossível, mas a gente coloca como possível na ficção, a gente pode fazer e aquilo vai trazer uma ideia

Selvagem é um ensaio para a revolução, é um filme para trazer ideias pra juventude, para que ela assista e saia da sala de cinema com o filme reverberando, pensando na possibilidade deles se organizarem, conversarem uns com os outros e quem sabe fazer uma mudança no futuro.

Eu boto muita fé que a ficção traz ideias, pode fazer a gente repensar a própria vida, e no futuro pode se transformar em ações que mudam concretamente a nossa vida e nosso dia a dia. É por isso que eu acho que a gente precisa trabalhar mais sobre a chave das utopias realizáveis. Então as vezes algo pode parecer que é impossível, mas a gente coloca como possível na ficção, a gente pode fazer e aquilo vai trazer uma ideia. E cada vez que a gente coloca coisas que parecem impossíveis como possíveis, cada um que vai assimilando e tornando essas ficções possíveis vão levando as ideias para um futuro melhor. Então é importante fazer ficções, mas não ficções que destruam sonhos, mas que alimentem sonhos.


"É inevitável a gente não falar de política no nosso cinema, porque a gente é um país em que as pessoas sofrem muito, estamos sendo empobrecidos, estamos sendo mortos" / Foto: Arquivo pessoal

BdFRS - Como está o processo de lançamento do filme, ainda em período de pandemia e de retomada do setor?

Diego - No Selvagem a gente fez um caminho inverso do tradicional. Geralmente o pessoal lança o filme em salas de cinema e depois vai pra TV, VOD (sigla em inglês para vídeo sob demanda), etc. A gente começou fazendo sessões com debates, sessões menores. A gente fez uma miniturnê na América Latina, no Chile, Equador, Uruguai, Paraguai, Colômbia. A gente fez uma miniturnê no Nordeste, de Salvador até Natal, sempre com presença e com debate. A gente fez uma turnê nas periferias de São Paulo e pro ano que vem vamos fazer nas periferias do Rio. A gente fez no interior paulista também, onde temos outra nessa semana. E eu espero que a gente faça também em algumas escolas em Porto Alegre, a gente já tem conversado.

A cada sessão, cada lugar que a gente vai, tem duas, três pessoas pedindo para levar o filme nas suas escolas, nos seus cineclubes, e isso é o que tá fazendo a diferença no Selvagem. Porque a presença é importante, os debates, a troca de ideia, e a gente sente que o público gosta muito.

E agora o lançamento nas salas de cinema é bem mais complexo porque a gente tá concorrendo com uma série de filmes, de blockbusters, da Globo Filme, que são filmes que têm muito dinheiro de propaganda, muita entrada, então a gente acaba ficando pequenininho. Mas mesmo assim conseguimos um público suficiente para ficar uma segunda semana em cartaz, graças ao público que foi e a essa nossa movimentação alternativa, que a gente tem feito à revelia do status quo, à revelia do cinema hegemônico. Porque se você fosse parar pra pensar, a gente nem deveria existir aqui, a gente nem deveria colocar esse filme em um cinema de shopping né (risos).

Abrimos mão da nossa bilheteria nessas duas primeiras semanas nos cinemas Itaú, e o ingresso tá R$ 10 para todo mundo. Acho que isso é uma vantagem para que essa semana seja melhor ainda que a primeira

Mas a gente tá lá, ficamos entre os 15 pré-selecionados para o Oscar, poderíamos ter representado o Brasil como filme brasileiro. Inclusive se você entrar no Instagram da Academia Brasileira de Cinema, você vai ver o tanto de gente pedindo Selvagem ali. Então é um filme que popularmente pega, que as pessoas gostam.

E a gente tem feito uma promoção. Abrimos mão da nossa bilheteria nessas duas primeiras semanas nos cinemas Itaú, e o ingresso tá R$ 10 para todo mundo. Acho que isso é uma vantagem para que essa semana seja melhor ainda que a primeira, e que a gente tenha uma terceira para poder passar o filme a mais pessoas.

BdFRS - Tem novos projetos em vista? O momento para a produção de cinema no país é difícil?

Diego - Projeto é o que não falta, tenho projeto pra caramba, durante o primeiro ano de pandemia escrevi diversos roteiros de longa, agora que tem essa reabertura gradual e tô lançando filme, não tô escrevendo muito. Mas projeto não falta.

Agora, produzir cinema no Brasil já era difícil para quem está fora do status quo, como a gente, pra quem não é inserido no cinema hegemônico. Então pra gente há uma grande diferença, obviamente, mas ela não é tanto como pra quem já tá inserido. Quem tá inserido e tinha acesso a praticamente todo o dinheiro agora não tem acesso a dinheiro nenhum, e pra gente piora. Se você for ver a Lei Aldir Blanc, que era um fomento pra ajudar artistas que precisam, tem casos aí de herdeiros, artistas milionários levando uma Aldir Blanc. E os poucos editais que têm ficaram escassos e grandes produtoras acabam levando a maior parte das vagas, então é difícil.

Mas como a gente não é inserido e sempre trabalhou com nada, a gente veio do nada e a gente trabalha com as formas possíveis, a gente vai se reinventando. Algum projeto vai sair, só não sei qual vai ser, mas quando ele sair, vai pegar fogo também.


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Edição: Katia Marko