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Ao mentiroso só resta mentir

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Bolsonaro descreveu um país de faz-de-conta na abertura da assembleia geral das Nações Unidas. Se a plateia se calou, as paredes dos edifícios de Nova York gritaram “Vergonha” e “Mentiroso” - Reprodução/Twitter
Quando sua campanha patina e inexiste governo ou realizações a relatar, resta a Bolsonaro a mentira

“Nunca se mente tanto quanto véspera de eleições, durante a guerra e depois da caçada”, dizia Otto von Bismarck. A prova viva da tirada certeira do velho chanceler da Alemanha é Jair Bolsonaro (PL). Ao transitar por Londres, além de embasbacar o planeta ao lançar o combo comício-funeral, disse à cambada de paspalhos que o idolatra que, se não vencer as eleições em 1º. turno, terá havido “algo de anormal dentro do TSE”.

Bolsonaro mente tanto que começa a acreditar nas suas mentiras. Ou nas patranhas excretadas nas cloacas da internet que não cansa de reproduzir. Levantamento encomendado pela Agência Pública ao projeto Eleições Sem Fake, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) constatou que “Bolsonaro vence hoje em todos os estados” é uma das mensagens mais compartilhadas em grupos do Telegram e do Whatsapp. Também nutridas por balelas industriadas no submundo bolsonarista, há criaturas acreditando que o inquilino provisório do poder federal tem 62% de intenções de voto, enquanto Lula teria 17%... 

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Soa inconcebível mas para quem acha que vacina contra covid embute um chip chinês, causa Aids ou converte sua vítima em jacaré, nada mais é inacreditável. No admirável mundo novo das redes e das convicções customizadas, muitas pessoas não estão interessadas na verdade factual. Querem apenas ouvir algo capaz de legitimar suas próprias certezas formadas, pétreas e estabelecidas.

É nesse mar de náufragos que o bolsonarismo nada de braçada. 

O problema é que, como comprovam as pesquisas mais variadas, a maioria do eleitorado não confia naquilo que o presidente fala. Não fala sequer para os 31% que lhe prometem o voto mas para os 10% mais insanos da sua horda, aqueles que espicaça para saírem às ruas quando a dura realidade emergir das urnas.

É para os mais fiéis, dependentes da drogadição de mentiras, rancor e fúria, que visa o discurso do “Vou ganhar no 1º turno”. É para quem falou sempre nos últimos quatro anos. Em 1.353 dias na presidência, Bolsonaro deu 6.255 declarações falsas ou distorcidas, conforme apurou outra agência de checagem, Aos Fatos. Cada mentira sorvida com sofreguidão como a dose necessária para sustentar o delírio.

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Aos poucos, perante o desastre que as mentiras não puderam ocultar, os arrependidos do voto se distanciaram da criatura a que deram vida. Mas o núcleo duro está aí, submisso às mentiras como tática eleitoral. 

Quando sua campanha patina, o futuro é incerto e inexiste governo ou realizações a relatar, não há muito o que fazer senão perseverar na mentira e pregar para os convertidos. Ciente disso, descreveu um país de faz-de-conta na abertura da assembleia geral das Nações Unidas. Se a plateia se calou, as paredes dos edifícios de Nova York gritaram “Vergonha” e “Mentiroso”.

O poeta Mário Quintana dizia que “a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. No caso em questão, há um volume industrial de verdades que esqueceram de acontecer. 

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Outro embusteiro, mais divertido e engenhoso, o Barão de Münchhausen, ganhou fama com aventuras bizarras e povoadas de mentiras. Uma das mais notáveis ocorreu quando inadvertidamente meteu-se em um pântano com sua montaria. Estavam os dois sendo tragados pelo atoleiro quando Münchhausen teve uma ideia genial: com uma mão puxou os próprios cabelos e a cola do cavalo com a outra, livrando-se da enrascada.

Imerso no seu lamaçal, é o que Bolsonaro está tentando fazer. 

Edição: Rodrigo Chagas