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'Senhores, todos vão se f****'

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Anderson Torres ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) - Wilson Dias/Agência Brasil
Não considero que a 'vocação legalista' das Forças Armadas tenha o peso que alguns lhe atribuem

Começo este artigo com uma reverência à tirada do ex-ministro e fiel depositário de minutas golpistas, Anderson Torres. Estranho que ninguém tenha dado à síntese espetacular seu devido valor. É uma fala para ingressar na História deste país de tantas e memoráveis frases, muitas das quais expelidas pelo mandato que então agonizava. Dissecá-la não é o objeto destas pobres linhas mas ela resume em cinco palavras todo um quadro político, o moral abalado e o sentimento de derrocada da tropa bolsonarista naquele 5 de julho de 2022. Gratiluz, ministro.

Naquele dia, como mostraram as lentes do coronel Mauro Cid, o general Alberto Heleno sugeriu esmurrar e virar a mesa antes das eleições. Seu colega de quartel e ministério, Paulo Sérgio Nogueira, disse que estava “na linha de contato com o inimigo”, olho no olho com o TSE, como um lutador de sumô. Bolsonaro falou que, perdendo a eleição, seria preso ao descer a rampa do palácio.  Alguém reclamou “ação”. Havia “luzes”, “câmera” (ainda bem) mas necas de “ação”.

Apesar das advertências, o golpe morreu na casca sem o ímpeto que o discurso de Torres visava emular.

Mas por que ninguém se mexeu para salvar os que “iriam se f*****”? Houve muitos motivos, entre os quais a irrefreável vocação para a comicidade dos insurretos, resultando em táticas e estratégias que enriqueceram o anedotário nacional.  Sem esquecer o toque sutil, porém resoluto, do Grande Irmão do Norte advertindo que não aprovaria furdunço nas eleições daquele ano. 

Não considero que a “vocação legalista” das Forças Armadas tenha o peso que alguns analistas lhe atribuem. Sinceramente, a metafísica não é o meu forte. Penso que a História já entrou no terceiro século esbofeteando essa tese.

Meu pressuposto é outro: faltou Mourão Filho. Em 1964, o general Olympio Mourão Filho, à frente da Divisão de Infantaria da 4ª. Região Militar, partiu de Juiz de Fora (MG) dando o pontapé inicial do golpe contra João Goulart. Não estava combinado. 

Colocou a soldadesca na estrada, arrepiando os cabelos dos conspiradores Castelo Branco e Costa e Silva que planejavam outra data e temiam que a quartelada desandasse devido à afoiteza daquele doido de pedra. Mas ninguém o segurou. Foi uma insensatez mas deu certo. Menos para Mourão que foi escanteado pelos parças golpistas. E para nós que tomamos 21 anos de ditadura no lombo.

Imaginem se o general Estevam Theophilo Gaspar de Oliveira, comandante de Operações Terrestres do Exército (Coter), estivesse em um dia de Mourão Filho e desse na sua veneta dar um passo adiante, botar a tropa na rua, ocupar Brasília e prender o ministro Alexandre de Moraes? Ele disse que estava à disposição. Ou outro golpista, o almirante Almir Garnier, comandante da Marinha que teria topado a virada de mesa? São dois exemplos. Há outros. O que aconteceria?

Levanta a mão quem acredita que os demais comandantes – aqueles que nunca deram um pio em quatro anos - travariam um desses dois caros colegas? Em favor do mandato de Lula? Contra Bolsonaro, aquele que falava sempre “meu exército”, no modo possessivo, como se as FFAA fossem um bibelô na sua escrivaninha? Não, não creio em duendes.  

Na melhor das hipóteses, entraria em ação a turma do deixa disso para melar oficialmente o pleito, fazer uma recontagem marota ou marcar outra eleição estendendo o mandato de Bolsonaro. 

A pior das hipóteses não ouso nem cogitar. Fosse como fosse, seria, então, a nossa vez. Ou seja, tomaríamos emprestada para nosso uso pessoal a verve do ex-ministro, hoje reluzindo tornozeleira eletrônica, e poderíamos anunciar a plenos pulmões: “Senhores, todos vão se f*****”.

*Ayrton Centeno é jornalista, trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra, autor de livros, entre os quais "Os Vencedores" (Geração Editorial, 2014) e "O Pais da Suruba" (Libretos, 2017). Leia outras colunas.

** Este é um texto de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.


 

Edição: Vivian Virissimo