Rio Grande do Sul

Isolamento

As vozes distantes que atenuam a tristeza na solidão da pandemia

Em tempos de pandemia, espaços digitais de acolhimento são fundamentais para quem precisa de apoio psicológico

Brasil de Fato | Porto Alegre |
Iniciativas tem por objetivo ajudar as pessoas a enfrentar e atenuar os efeitos do período de isolamento social. - Martin-dm/istock

“Está no ar Vozes da Madrugada com suas vozes que acalentam, acolhem, confortam”. A Rádio Invenção abre assim sua programação, começando mais uma experiência solidária em meio à pandemia. É dirigida a um público esquecido que, mais que a média da população, sofre com o isolamento, a tristeza e a solidão: os usuários dos serviços de saúde mental.

“O que estava adormecido em mim despertou. Não encontrava mais nenhum sentido quando esse coronavírus dos meus amigos me isolou”, rima Aurora (*). “É maravilhoso. Tem sala, coração e cérebro. Podemos usar desde quando apareceu esse coronavírus e até ele terminar”, celebra Dalva.

O Vozes da Madrugada é apenas uma das iniciativas que surgiram para responder uma pergunta essencial: como, em meio à investida da covid-19 e sem a presença dos psicólogos e funcionários, os pacientes vão enfrentar a depressão e a ansiedade provocadas pelo distanciamento e o medo da doença?

Espaço de acolhimento

A resposta está sendo dada pelos grupos online que surgiram para apoiá-los mesmo à distância. Já estão atuando em Pelotas, Alegrete, Porto Alegre e outras cidades, reunindo-se com os pacientes nos aplicativos de bate-papo, como o WhatsApp e o Messenger. As salas virtuais se converteram em espaço de acolhimento emocional para devolver a esperança.

Além de amenizar os sintomas de sofrimento psíquico – incompreensão, dependência de álcool e drogas, preconceito, ideias suicidas, desemprego – as salas de conversação exploram e atividades de relaxamento, como exercícios de yoga e advertem para os cuidados necessários frente à covid-19.

Também procuram acalmar os usuários quanto à compreensão do quadro atual. Alguns deles ficam ansiosos com as falas presidenciais. “Acontece quando Bolsonaro diz que é uma ‘gripezinha’ e menospreza os riscos de contaminação, ainda maior para pessoas mais frágeis e que vivem em pequenos espaços”, argumenta a psicóloga Judete Ferrari.


Quando a pandemia chegou, Judete viu que o desafio estava além dos grupos presenciais que administrava. / Arquivo Pessoal

Nas conversas ainda estimulam a realização de trabalhos manuais e artesanato, o hábito da leitura, o cultivo de horta, a elaboração de um diário.

“Eles podem anotar três coisas positivas do dia”, ilustra Judete, com 31 anos de “trajetória mentaleira”, como diz. Além de criar o Vozes da Madrugada, ela também responde pelo GOL – Grupo de Ajuda Online, de Alegrete, na Campanha gaúcha. “Há distanciamento físico mas proximidade afetiva”, compara.

Quando a pandemia chegou, Judete viu que o desafio estava além dos grupos presenciais que administrava. Notou que a interação e o apoio pessoalmente produziriam riscos para saúde dos pacientes e seus familiares. Como aqueles dois aplicativos eram os recursos mais usados pelos usuários, escolheram o mesmo caminho para montar a rede de cuidados online.

“Um colo de dormir”

“É um chat de conversação. Estabelecemos o horário de 1h30 de duração e um limite de 15 pessoas”, relata. Começou com mensagens de texto e, logo, de áudio, depois que alguns dos participantes tiveram que superar o receio de ouvir a própria voz. Com metas construídas em coletivo, o funcionamento estabelece normas como, por exemplo, sigilo, pontualidade, preservação da identidade, respeito por todas as falas e ausência de julgamentos.

À noite, é a vez do Vozes da Madrugada – das 19h às 07h – que atende os usuários em crise por alguma razão e que, ali, ganham um suporte para superar o problema. É onde atuam pares de profissionais de saúde chamados “MADRUGAdorez”, que acalmam as dores que impedem o sono. “É um acalento, um conforto, um colo de dormir”, sintetiza Judete.

Usina de novos grupos

Em Pelotas, no Sul do estado, opera o Escuta na Quarentena, também embarcado na proposta do auxílio mútuo. “Do Escuta na Quarentena participaram até o momento mais de 100 pessoas”, repara a terapeuta ocupacional Larissa Dall`Agnol da Silva, professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e uma das quatro profissionais que implantaram o serviço ao lado das colegas Liamara Ubessi, Luana Ribeiro e Roberta Machado.

Entre os participantes, gente de todo o Rio Grande do Sul e também do Rio de Janeiro, São Paulo, Amazonas, Minas Gerais, Bahia e Sergipe. O grupo integra o canal Conta Comigo, com suporte de terapeutas ocupacionais, psicólogos e enfermeiros da UFPel, além da associação local dos usuários, de coletivos e do Forum Gaúcho de Saúde Mental (FGSM).

Mais tempo para falar

“É uma usina de criação de outros grupos virtuais e neste sentido vem fortalecendo as pessoas, levando informação, trocando receitas de bolo, inventando a vida no cotidiano”, discorre Larissa. O Escuta na Quarentena é realizado duas vezes por semana com uma hora de duração. O espaço virtual – a exemplo dos demais em outras cidades – é mediado por facilitadores e profissionais de saúde mental. Mas os usuários querem mais.


O Escuta na Quarentena já serviu de disparador para outros três empreendimentos, explica Larissa / José Maurício Oliveira

“Eles querem falar mais tempo, abrir outros grupos em outros dias”, comenta. Dizem assim: “Queremos outro grupo ou um grupo maior e aberto pra que a gente possa falar sobre nosso cotidiano, nossas angústias, nossa vida a todo momento e não apenas no horário que é estabelecido...”

Larissa explica que o Escuta na Quarentena já serviu de disparador para outros três empreendimentos do tipo. São os grupos AMA, Ouvidores de Vozes e Pura Energia. Judete agrega que, sob o confinamento, nasceram novas experiências do mesmo gênero em Porto Alegre, Farroupilha e Rio Grande.

Viradão Antimanicomial

A próxima segunda-feira (18) é especial para os psicólogos, terapeutas ocupacionais, trabalhadores do setor, usuários e todos os envolvidos com a proposta de uma sociedade sem hospícios. É o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Para marcá-lo, os “mentaleiros” vão realizar o Viradão Antimanicomial.

Serão 24 horas de atividades sob o lema “[email protected] na Netchê”. Abrirá à meia-noite de domingo para segunda-feira com uma live de 1h e, nas 23 horas seguintes, alinhará depoimentos, teatro, vídeos, fotos, música, meditação, debates, filmes, entrevistas e rodas de conversa. Poderá ser acompanhado por pessoas diagnosticadas ou não no Facebook do FGSM.

Para os organizadores, promete um reforço naquela interação que Cláudia, por exemplo, encontra no seu grupo: “Tá sendo produtivo pra minha mente, pra minha vida. As pessoas falam com coração, com alma. Passa esperança de um pra outro. A gente cresceu. Amo”. É também aquela busca que João descobre em Cativeiros, a canção gaúcha que canta em Vozes da Madrugada: “Não tem preço, a liberdade não tem dono/ Só quem é livre sente prazer em cantar/ Se um passarinho canta mais quando está preso/ É no desejo de um espaço pra voar”.

(*) Os nomes verdadeiros dos usuários foram substituídos por fictícios como forma de preservar as identidades.

Edição: Marcelo Ferreira