Rio Grande do Sul

Coluna

A Antiutopia bolsonariana

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"A regressão civilizatória proposta por Bolsonaro torna a desigualdade, a violência de classe, a eliminação do contraditório, a concentração extrema de riqueza em ideais de mundo" - Mauro Pimentel/AFP
A ideologia move os corações da direita, mas a liberação geral da economia move os muito ricos

O termo utopia foi forjado em um romance ficcional escrito por Thomas Morus[1] em 1516. Diz respeito a um lugar que não existe, ou pelo menos não existe ainda, onde sua sociedade seria justa. Utopia, na ficção de Morus, é uma ilha onde não há propriedade privada e os seres humanos são iguais. Todos trabalham para o bem comum e seu excedente resulta em diminuição da jornada de trabalho. E, até mesmo, Deus é amável e a intolerância religiosa não existe.

Ainda que a obra seja ficcional, há um forte componente histórico em sua narrativa. Utopia é um contraponto ao contexto histórico e humano de sua época e de seu mundo inglês. Uma declaração de insurgência contra a realidade. Não se trata de mero irrealismo, mas de um postulado ético-moral sobre o devir a ser de uma sociedade em crise e com seus cidadãos na pobreza.

Se utopia é a projeção de uma realidade que ainda não existe, cujo sentido maior é a antítese da sociedade realmente existente - uma sociedade em crise -, a projeção de uma sociedade nestes termos, com seus cidadãos empobrecidos e vivendo sem paz, é uma antiutopia. Um lugar que existe. 

O bolsonarismo é a radicalização da realidade, o aprofundamento do desastre. A política e os valores políticos desenvolvidos expressam a luta obstinada para obstruir qualquer tentativa de superação da realidade atual do país. Bolsonaro propõe ao Brasil, uma regressão, uma antiutopia.

A regressão civilizatória proposta por Bolsonaro torna assim a desigualdade, a violência de classe, a eliminação do contraditório, a concentração extrema de riqueza em ideais de mundo. A regressão de direitos e da igualdade passa a ser um paradigma da sociedade perfeita. A ideia de utopia é mais um axioma a ser combatido ferozmente pela extrema direita organizada e conformada no bolsonarismo. O ideal de mundo é a radicalização da atualidade. O que significa dizer, retroceder na democracia e na distribuição de direitos sociais aos níveis de um passado quando, tanto democracia quanto os direitos, eram absurdamente rarefeitos. Trata-se de um processo de agitação e propaganda de crenças e práticas cujo a dimensão ideológica é a antimodernidade e a dimensão prática é hiper exploração econômica.

A crença na posse de armas como garantia de liberdade, por exemplo, transforma-se na prática da potencialidade de eliminar o adversário que se oponha à regressão de direitos. A violência passa a ser tolerada, e tomada, não como crime ou marginalismo, mas como um recurso. Passa a ser mais que tolerada, legitimada pela causa. O violentador passa a se mover por uma missão encorajada por todo o aparato ideológico em funcionamento da extrema direita e do fundamentalismo religioso. Assume uma dimensão metafísica de guerra pela eternidade, no sentido conferido por Benjamin Teitelbaun[2].

Porém, o reconhecimento de que haja uma dimensão ideológica, ainda que fragmentada e inconclusa, nas motivações e organização da retórica e na ação dos bolsonaristas, não pode servir para apagar as pouco confessáveis dimensões materiais das ações da liderança desse campo político.

As relações com o crime organizado, os mecanismos de corrupção e prevaricação, a ostensiva facilitação às práticas econômicas que configuram crimes ambientais como o garimpo e extração ilegais, a liberalização do consumo de armas, se somam às regressões nos direitos trabalhistas, no sistema de saúde pública, a redução dos investimentos em universidades e pesquisa, a proteção à sonegação de impostos, o aprofundamento da regressividade no sistema tributário, a liberalização sem compensações e freios da economia, a privatização da riqueza petrolífera do país e assim por diante. A ideologia move os corações da direita, mas a liberação geral da economia move os muito ricos.

O bolsonarismo, forma aparente da extrema direita brasileira, deve ser enfrentado em todas suas dimensões. Na esfera pública da ideologia e na esfera estatal do governo sobre a economia. Restaurar direitos, proteger a diversidade econômica do país, gerar emprego e o mercado interno de consumo, restaurar a altivez na política internacional, investir nos serviços públicos fundamentais é fundamental para retomar a dimensão progressiva do caminho da civilização. Mais direitos e mais apropriação da renda pública significa mais igualdade e mais oportunidades.

Mas enfrentar a extrema direita, o tradicionalismo, o neofascismo e outras expressões da regressão, igualmente no campo da ideologia é essencial. A defesa dos valores da igualdade, da cultura da paz e da solidariedade é essencial. Há uma disputa de vocabulário a ser feita. Não queremos atitudes nobres, mas atitudes solidárias. Não falamos de privilégios de trabalhadores, mas direitos de trabalhadores. Não falamos de gastos sociais, mas de investimentos sociais. Não falamos de Estado ineficiente, mas de Estado capturado pelo capital financeiro.

O enfrentamento da ideologia regressiva e neoliberal, em convergência com o enfrentamento das políticas econômicas do bolsonarismo, é essencial para que a resistência a esses males seja sólida e não calcada em pés de barro.


[1] MORUS, Thomas. Utopia. São Paulo: Ed Martin Claret, 2004.

[2] TEITELBAUN, Benjamin R. Guerra pela eternidade, Campinas: editora da Unicamp, 2020.

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko