Rio Grande do Sul

Coluna

Recolher e cuidar das cinzas: quem se encarrega?

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"A única forma de fazer a necessária travessia do luto pelos que partiram, é tomar a palavra e reinventar a vida a partir desta dor, e assim produzir novas significações" - Imagem: https://media.istockphoto.com
Escrevemos para nos virarmos com a perda, com a dor e com o luto

Pois então, em pleno Carnaval, me vi às voltas com a escrita de um texto sobre o luto.

Minha amiga e colega que me propôs um rolê no Carnaval do Bom fim, no domingo, acabou tendo que ouvir tudo o que eu estava preparando. Na metade da minha narrativa, ela me diz: Mas é Carnaval! Ao que eu lhe respondi: Eu sei, mas tenho que entregar para a revista na quarta-feira! E prossegui no sacrifício da minha interlocutora.

Felizmente, creio que nosso encontro no Bom Fim foi mais divertido para ela, pois tivemos uma excelente troca de ideias, como sempre, e eu aproveitei a pausa para recarregar minhas baterias, e assim repensar, na volta para casa, alguns pontos do que já havia escrito. 

O ambiente carnavalesco, a música, a alegria, as fantasias, e até mesmo minha própria indumentária, com alguns brilhos e cores, me deram o gás que eu precisava para seguir em frente e terminar o artigo até o final da terça-feira. Aliás, até mesmo a jornalista encarregada do contato comigo, na Revista, me disse, quando lhe perguntei qual seria meu prazo máximo para entrega do texto, que já estava atrasadíssima: “Pode entregar na Quarta-Feira de Cinzas”, e em seguida acrescentou: “Pois é... bem simbólico, isso de entregar um texto sobre o luto na Quarta-Feira de Cinzas”. Ao que eu lembro de ter respondido apenas com o bonequinho (emoji) boquiaberto.

E sabem qual foi o meu “disparador” (odeio a palavra “gatilho”), a minha inspiração para escrever o tal artigo? O texto da minha colega mariam pessah em sua última coluna: “Sobre o que não falamos”. Foi magistral a forma como ela discorreu sobre os limites da representação, daquilo do qual nos é impossível falar e sobre o qual nos é impossível escrever, mas que mesmo assim, inventamos um jeito de falar e de escrever sobre. É uma resistência das maiores aos limites da representação, essa invenção utópica do escrever, e a coluna da mariam nos deu uma linda prova disso.

Mas enfim, tratava-se de escrever sobre o luto e eu, que nunca pensei em escrever sobre, apenas em ler ou teorizar sobre, tive que me virar com isso. Lembrei da coluna da mariam, sobre a impossibilidade de falar da tragédia do povo Yanomami, e reli um artigo de 10 anos atrás de uma colega que tentava falar sobre a tragédia da boate Kiss, onde ela também falava da sua impossibilidade de escrever sobre, apesar de ter estado na linha de frente dos que foram acolher e amparar os desesperados pais e familiares. E entendi muito bem, pois não há teoria que nos dê suporte para falar da dor e do luto de mortes que nos afetem, e este é o meu caso.

Sinto-me visceralmente e eticamente implicada em cada morte da boate Kiss, da pandemia da covid-19, e também do massacre do povo Yanomami. Sem contar as milhares de vidas que perdemos todos os dias em nosso país para a violência de gênero, de raça, de classe, de Estado e outras. Não há como ser diferente, pois minha condição humana exige isso de mim, é uma questão de pertencimento a esta comunidade. Sendo todos nós seres de linguagem, que só sobrevivem ao prematuro nascimento (sim, somos os mamíferos mais prematuros e inaptos para nascer e sobreviver) porque um outro nos acolhe e nos ampara por muito tempo, como não se implicar com o que acontece com o outro?  

Logo, o artigo não foi escrito, confesso, sem angústia e sem entraves. Mas creio que consegui, e isto também graças à valiosa ajuda do trabalho de um colega que já há algum tempo vem pesquisando e produzindo sobre psicanálise e utopia. O Edson Luís André de Souza recentemente lançou seu último livro Furos no futuro - Psicanálise e utopia, que me serviu de bússola e farol, durante este meu Carnaval escrevivente.

Com este livro, deparei-me com a minha irrevogável condição de testemunha, que ao mesmo tempo em que me impõe o reconhecimento dos limites dela, me exige a assunção da minha responsabilidade para com minha história. Além disso, aprendi, com esta leitura, que a única forma de fazer a necessária travessia do luto pelos que partiram, é tomar a palavra e reinventar a vida a partir desta dor, e assim produzir novas significações, novos “litorais”, para usar aqui uma expressão bem lacaniana.

Então, do mesmo modo como é verdade que a alegria e a dor são íntimas parceiras, também é verdade o que meu colega autor nos entrega quando afirma que precisamos [...] recolher e cuidar das cinzas, e para isso, precisamos de muita utopia, de muita invenção e reinvenção da língua, e consequentemente, da vida. E claro, isto supõe muita disposição ética, muita coragem. E disso tudo, só pode se encarregar quem se sinta suficientemente implicado e responsável.

Por isso escrevemos, para nos virarmos com a perda, com a dor e com o luto. Como diz o poeta Waly Salomão, citado por Edson L. A. Souza em seu ensaio, “Escrever é se vingar da dor”.

* Rosane Pereira é psicanalista e escritora, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre -APPOA, e Presidente da Associação Projeto Gradiva - atendimento clínico psicanalítico para mulheres em situação de violência. É autora, entre outros, de “Mulheres Esquecidas” (Editora  Bestiario, 2022).

** Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko