Rio Grande do Sul

Coluna

O Natal Possível, ou o Natal dos Sonhos?

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Jornada de Solidariedade contra a Pobreza e a Fome leva alimento a 35 comunidades da Capital e Região Metropolitana; Uma delas foi a Cozinha Solidária Ass. Força e Coragem, da Tia Lúcia - Foto: Katia Marko
Ações do Natal Solidário lembram o sentido do Natal, a Boa Nova que Jesus veio trazer ao mundo

Em idos tempos, anos 1950, no dia 24 de dezembro as crianças de casa, dos parentes e vizinhos da Linha Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, eram ´mandadas´ de tarde para o potreiro do tio Afonso e tia Bertha. Lá, ficávamos brincando alegres a tarde inteira, até o início da noite. Motivo: Papai Noel ia chegar em casa durante a tarde e era ´proibido´ ver sua chegada. Quando chegávamos em casa, o pinheirinho de Natal estava instalado, cheio de adereços, lâmpadas, tri bonito, e as imagens de Maria, José, Jesus e pastores devidamente colocados no presépio.

À noite íamos dormir cedo para acordar cedo, o mais cedo possível. Logo de manhã, primeira coisa: chegar no presépio, ´descobrir´ os presentes: doces, balas, chocolates, roupas para os muitos filhos, utensílios de escola, etc. Lá em casa, erámos nove filhos - vários tias e tios tinham bem mais -, o mais velho, eu, apenas 14 anos mais velho que o mais novo, mano Marino. Não era fácil, portanto, em famílias de agricultoras familiares, conseguir presentes e pôr guloseimas nas mãos, bolsos e bocas de tantos filhos. Mas o que valia mesmo eram os chocolates, as balas gostosas, os bombons, tudo o que papai Léo, mamãe Lúcia, vó Gertrudes e tia Leonida conseguiam comprar para as muitas crianças.

Depois, era mostrar os presentes para os guris e gurias vizinhas-os, ver quem tinha ganho o que, o que era mais bonito, e assim por diante. E ainda havia outro ritual sagrado no dia de Natal, muito bem-vindo e esperado: visitar a casa dos padrinhos e madrinhas, quase sempre morando mais ou menos perto, para receber seus presentes muito esperados. Depois, claro, em famílias profundamente religiosas, hora de ir à missa, rezar bastante, cantar os louvores natalinos e agradecer pela família e por tudo de bom que se tinha ganho.

Acreditávamos em tudo, inocentemente: para nós, o menino Jesus de fato chegava nas nossas casas, junto com Papai Noel. Nunca os víamos ou enxergamos. Mas todas e todos sabíamos que existiam, sim, que eram muito bondosos conosco, eram nossos amigos. Estavam presentes todos os anos, nunca falhavam ou faltavam no 24/25 de dezembro. Assim, éramos felizes, muito felizes, abençoados. Crescíamos como crianças que não pensavam muito no amanhã, mas viviam o hoje com muita fé, amor nas famílias e comunidades.

Em 2023, a festa, a devoção, a alegria, os pinheirinhos, as orações continuam presentes, com, em geral, muito menos crianças em cada família. Mas estão presentes também, infelizmente, em muitos lares e comunidades, a fome, a falta de comida e de carinho, e, portanto, de presentes, de amor e tudo mais, o que não conhecíamos ou do que não ouvíamos falar nos anos 1950/1960.

Felizmente há mensagens e notícias que lembram os bons Natais daqueles tempos, com muito amor e solidariedade, e que fazem acontecer o Natal em 2023.

“Ações de Natal Solidário com apoio dos movimentos populares e da Conab. Jornada de Solidariedade contra a Pobreza e a Fome leva alimento a 35 comunidades da Capital e Região Metropolitana. Ações do Natal Solidário contaram com apoio dos movimentos populares, como o MST, CUT com a Comunidade, Levante Popular da Juventude, e da Companhia Nacional de Abastecimento, Conab. São alimentos para as marmitas, arroz, feijão, carne de porco. Foram distribuídos mais de 7 mil quilos de leite em pó” (Katia Marko, no Brasil de Fato RS, 18.12.2023).

“Cozinhas Solidárias de POA doam refeições com produtos da agricultura familiar. Produtos comprados pelo PAA da Conab contribuem com a Ação Natal Sem Fome, que deve distribuir cerca de 5 mil marmitas” (No Sul 21, 17.12.23).

“Para os gaúchos que mais precisam, foram distribuídas refeições das Cozinhas Solidárias com produtos adquiridos pelo PAA da Conab” (Blog do Luiz Muller, 19.12.23).

São ações de amor e solidariedade que lembram, em 2023, o sentido do Natal, a Boa Nova que Jesus veio trazer ao mundo e a todos os seres vivos, a sociedade do Bem Viver, ele, Jesus, nascido pobre numa manjedoura, rodeado de vacas e bois, acolhido pelos pastores, as-os mais pobres entre os pobres, as trabalhadoras e os trabalhadores de então.   

Diz muito bem, e corajosamente, o lema da Campanha de Natal de 2023: Os ingredientes da paz são o pão, o amor e a justiça social. Mais que nunca, nestes tempos de ódio e intolerância, de guerras, de fome, pobreza, desigualdade e injustiça, é preciso abraçar-se com força, ninguém soltando a mão de ninguém. O Brasil e o mundo precisam de solidariedade, de cuidado com a Casa Comum, de paz, de pão, de amor e justiça social.

Em 2023, feliz (re)nascimento para todas e todos. Feliz Natal todos os dias! AMÉM, AXÉ, AWERE, ALELUIA!

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato. 

Edição: Katia Marko