Rio Grande do Sul

PAPO DE SÁBADO

‘O racismo criou formas de se esconder’, denuncia a ialorixá Iyá Vera Soares

Quando se celebram as tradições de matriz africana, ela observa que o preconceito racial continua, embora camuflado

Brasil de Fato | Porto Alegre |
A ialorixá Iyá Vera Soares coordena o Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana - Foto: Alexandre Garcia

A ialorixá Iyá Vera Soares é uma militante histórica do movimento negro no Rio Grande do Sul. Além de seu papel religioso, ela coordena o Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana.

:: “O nome dos negros no Brasil é resistência”, afirma ialorixá Iyá Vera Soares ::

Nesta semana, a quinta-feira, 21, marcou o Dia Nacional das Tradições de Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé. Por conta disso, Brasil de Fato RS resgata esta conversa com Iyá Vera sobre racismo, preconceito, reparações e a representação do povo negro na sociedade gaúcha e brasileira.

Acompanhe:

Brasil de Fato RS - O presidente do Senado e o presidente da Câmara são brancos. Toda a composição do Supremo Tribunal Federal é de brancos. Os generais, a imensa maioria dos generais, ou todos, são brancos. Os brancos são maioria nas assembleias estaduais, nas câmaras de vereadores, nas universidades, na Câmara Federal e no Senado. O que é possível fazer hoje no Brasil, no século 21, para se combater essa distorção absurda na medida que pretos e pardos são a maioria da população brasileira?

Iyá Vera Soares - Para iniciar, eu vou pedir meu agô. Agô, para quem não sabe, quer dizer licença. Então eu vou pedir agô aos meus ancestrais porque, independente da cor da pele ou da fé, nós temos os nossos ancestrais. Para que eu possa falar de uma ferida tão profunda que fere tanto a maior parte da população brasileira e não só brasileira, os próprios africanos quando nos olham. Para termos estes povos nas mesas de poder temos um primeiro desafio que é combater o racismo.

Só o racismo justifica esta ausência que é colocada aqui nesta mesa

Só ele justifica esta ausência que é colocada aqui nesta mesa. Nas grandes autarquias brasileiras, temos quadros qualificados para ocupar nesses espaços. A única coisa que pode definir esta ausência é o racismo. O racismo instaurado na sociedade civil, na sociedade como um todo, na instituição brasileira, inclusive o racismo religioso, o racismo da existência, o racismo de ser quem eu sou. E a partir também de um estudo que ainda não está na pauta, mesmo que estejamos no século 21, que é como vamos ter conceitos legítimos, transparentes, da questão da mestiçagem popular.

Hoje é moda o negro casar com o branco, o branco procriar com negras. Como é que fica essa população? Então são feridas, são elementos que servem de sustentação para o racismo. Porque quando o Estado brasileiro não quer discutir, não quer aprofundar e chegar a um conceito que contemple esses povos, vamos conviver com este racismo instaurado, intrínseco em todos os setores da nossa sociedade.

BdF RS - Mas apenas para mostrar como esse espelho dá uma visão contrária dessa questão negro x branco, se formos usar a referência das prisões. Nas prisões, cerca de 70% são pretos e pardos. Só nesse momento, eles são maioria. Assim como nas favelas. Isso tem a ver com a questão da reparação porque tivemos a dita libertação dos negros, mas essa liberdade foi muito relativa, porque os negros não tiveram acesso à terra, não tiveram acesso às condições de vida após essa dita libertação.

Iyá Vera - Quando a princesa Isabel disse que alforriou, libertou o povo preto, o povo oriundo da diáspora negra, eles já tinham fugido. E isso está caracterizado nos grandes quilombos. Ela, a princesa Isabel, teve que ter uma ação, uma atitude, para que não se desmoralizasse como um todo o governo da época, né?

Só que esses (brancos) que vieram ganharam uma ajuda, um pedaço de terra

Quando a Europa descobriu o Brasil, entre aspas - que a gente aprende na escola que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil - quando já tinha os indígenas aqui. Então, na realidade, não descobriu. Chegou e se adonou do território brasileiro. Sem falar no povo que foi dizimado, os indígenas que desapareceram.

Não vieram só negros. Vieram também europeus, brancos. Só que esses todos que vieram ganharam uma cota, uma ajuda para plantarem, um pedaço de terra. Por isso que hoje nós temos grandes fazendeiros, não são brasileiros, não são africanos. Então eles já chegaram nessa terra com uma diferença. Quando (os brancos) invadiram a África ninguém perguntou “Vocês querem ir?”. E a África é um continente com 53 países. E eles juntavam cada um com uma língua diferente. Povo nigeriano que veio trouxe a língua iorubá, né? Tem a língua banto, a língua fon. É muita gente. São muitos países...

BdF RS - Muitos príncipes, não é?

Iyá Vera - Muitos príncipes! Estou me detendo um pouquinho nos povos que hegemonizaram e que vieram para o Brasil e que até hoje é preservado na memória dentro dessas ditas casas de religião. Porque esse “religar” - me permitam falar isso - foi válido no processo severo da escravidão, onde o negro não tinha outra opção a não ser obedecer. E muitos morreram no açoite, no laço, na tristeza, na dor, porque não queriam assumir a identidade aqui portuguesa.

BdF RS - Vale lembrar, nessa questão da suposta libertação, os Estados Unidos, que não são modelo para ninguém, especialmente nesse aspecto. Porém lá, quando houve a abolição da escravidão, que até envolveu uma guerra civil, cada negro liberto recebia 40 acres. Quarenta acres e uma mula. A terra e uma mula para lavrar. Ele partiu de algo, ao contrário do que aconteceu aqui, quando eles saíram todos com uma mão na frente e outra atrás, livres para morrer de fome. Aliás, tem uma particularidade: o Spike Lee, que é um grande cineasta negro, colocou o nome da sua produtora de 40 Acres e uma Mula. Lá, apesar da violência toda, especialmente no Sul, os negros ascenderam socialmente. Embora discriminados, embora marginalizados, conseguiram ascender, porque partiram de um ponto material. Enquanto aqui não houve ponto nenhum.

Iyá Vera - Exatamente. A tradição de matriz africana em toda essa fala que você fez, na violência, na resistência. O Brasil foi um dos países que teve a violência maior de todo o processo escravagista no mundo. O mais severo. O mais racista. 

O Brasil foi um dos países que teve a violência maior de todo o processo escravagista no mundo

BdF RS - E que foi o que mais recebeu escravos...

Iyá Vera - Foi e foi muito duro no processo da escravidão. Não tinha a mínima oportunidade de organização que não partisse da senzala. Lá se organizaram e fizeram o processo de fuga. E isso obrigou a princesa Isabel a assinar um documento dizendo que estava alforriando os negros.

Quando eles vieram para o Rio Grande do Sul, sem lenço e nem documento, sem comida, sem nada, não sendo ninguém, se reuniam onde? Ficavam naquilo que hoje é chamado de Parque Farroupilha, na Redenção. Por isso aquele nome é Redenção. Ali onde é o Largo Zumbi (dos Palmares) hoje, né? Lutamos para botar esse nome onde antes era ali o… nem me lembro o nome.

BdF RS - Largo da Epatur.

Iyá Vera - Ali tinha uma casa de abolicionistas. Foi uma casa que fez a diferença para o povo preto que chegou nesse estado.

Minha família, particularmente, se criou, se gestou, se gerou ali na Colônia Africana

BdF RS - E o Bonfim que está ali ao lado da Redenção, ali havia a Colônia Africana.

Iyá Vera - Ali era a Colônia Africana. Minha família, particularmente, se criou, se gestou, se gerou ali. E a Paterna, na outra colônia, que hoje é o bairro Auxiliadora, o Montserrat, que era só negrada. Depois migrou para os morros, que viraram as grandes periferias. Uma das últimas é a Restinga, hoje um bairro gigante. O processo da discriminação racial até hoje é vigente entre nós. Tivemos um senador negro, mas ele nunca foi “grandão”. 

BdF RS - Temos ainda. O Paulo Paim.

Iyá Vera - O Paulo Paim tá se aposentando, lamentavelmente. E aí eu pergunto, quantos depois dele chegaram a isso? Será que ninguém tinha capacidade? Ou tinha alguém que não permitia que chegasse?


"A política que tem que ser proposta e feita é a das reparações. O Estado brasileiro está condenado, a partir do Banco do Brasil, a reparar o que não tem dinheiro que pague", afirma Iya Vera Soares / Foto: Alex Garcia

BdF RS - Está começando a mudar agora. Tem a bancada negra, com os jovens que estão vindo.

Iyá Vera - E que ainda são muito combatidos. A política que tem que ser proposta e feita é a das reparações. O Estado brasileiro está condenado, a partir do Banco do Brasil, a reparar o que não tem dinheiro que pague. Então, vai ter que ser cobrado com políticas afirmativas, com políticas de reparação. 

BdF RS - Aliás, por conta dessa dificuldade, citamos agora a bancada negra, que foi a bancada negra na Câmara de Porto Alegre, e hoje, a bancada negra na Assembleia. Ao mesmo tempo que se vê essa ascensão lenta, mas contínua, a gente percebe também que todos os dias têm um envolvimento, uma denúncia de racismo. Isso se tornou muito frequente. Você acha que esse racismo está aumentando devido à presença do negro em lugares onde antes ele não estava presente, como nas universidades ou nos legislativos? Ou simplesmente isso sempre existiu e só agora nós estamos vendo?

Iyá Vera - Sempre existiu. Nunca conseguimos combater o racismo. Ele criou formas de se esconder...

Esse racismo estava debaixo do tapete. Estava camuflado no grande abraço, no tapinha nas costas

BdF RS - O livro Não Somos Racistas, do Ali Kamel, um dos diretores da TV Globo, defende a inexistência de racismo no Brasil. É curioso isso, porque antes se dizia que o Brasil não era racista, que todo mundo se dava bem, que estava tudo numa boa. O país cordial, o homem cordial, essa coisa toda...

Iyá Vera - Esse racismo estava debaixo do tapete. Estava camuflado no grande abraço, no tapinha nas costas. “A minha empregada é uma negra. Mas é uma negra limpa. A minha empregada é uma negra, mas ela come na mesa comigo. Trabalha direitinho. É asseada.” Mas ela não tinha carteira assinada. Havia algumas raríssimas exceções. Isto que vou dizer pode me custar caro: nem todo branco é racista. Senão não teriam existido os abolicionistas. Temos uma maioria - vamos botar 70% - de racistas. Uns 20 ou 30% não são racistas.

BdF RS - Mas está tão entranhado, gerações e gerações, que as pessoas têm atitudes racistas sem se dar por conta. 

Iyá Vera - Isto me remete à educação. A questão do (combate ao) racismo não adianta mais para mim ou para outro que tem 40 ou 50 anos. Ele já cresceu com aquilo como se estivesse na corrente sanguínea. Ele até pode dizer da boca para fora “Eu não sou, até tenho amigos negros” em casa, mas fora, no convívio, enquanto respeito não. Se ele tiver que votar e tiver dois brancos e um negro ele vai votar no branco. Não vai apostar no negro porque aquilo é além dele.

Quando é que o racismo se instaura naquele bebezinho? Quando ele é pequenininho, ele brinca com o pretinho, com o branquinho, tudo junto. Quando a mãe pega e diz assim: “Não brinca com aquele negrinho, não vê que ele é preto? Não quero”. Ali nasce, se instaura e ele cresce com aquilo. Então tem medo. O primeiro sintoma é o medo. Depois, vai ouvindo a vida toda dele, que aquilo não é bom. Como vai se combater esse racismo?

Nós negros e negras, temos que ter a consciência de que, se tiver uma candidatura negra, temos que acreditar nela

No Estado brasileiro ele está institucionalizado. Se tiver um concurso público até quero me arriscar a dizer que talvez não exista uma seleção, mas mesmo assim acho que bem lá em algum lugar do cantinho deve ter. Que é aquela coisa chamada perfil, aquela entrevista, aquele psicotécnico... Aí eu tenho a mesma qualificação da outra moça que não tem a pele preta, que tem cabelo louro, olho azul ou não, mas que a pele é branca. Eu tenho igualzinha a mesma capacidade, mas por um motivo qualquer não vou ficar eu. Vai ficar a moça.

BdF RS - Mas para ter essa igualdade, para termos mais, por exemplo, deputados e vereadores negros e negras, os brancos têm que abrir espaço...

Iyá Vera - O próprio negro, nós negros e negras, temos que ter a consciência de que, se tiver uma candidatura negra, temos que acreditar nela. Não tenho que olhar os negros procurando qual é o defeito. “Ele vai lá porque quer aparecer, porque quer isso, porque quer aquilo. Não vou votar no fulano porque é isso, porque é aquilo.” Ele antes de ver o valor do seu igual, começa a procurar os defeitos. É um processo do qual talvez não tenhamos culpa. Vou me incluir junto. Isso foi colocado no sistema desde pequenininho lá. O meu lugar era na cozinha.

Escreveram lá no muro da Ufrgs: Cotas para negros é na cozinha

Quando houve o debate das cotas na Ufrgs, escreveram lá no muro da universidade: “Cotas para negros é na cozinha”. Tenho foto disso. É o retrato da nossa universidade. É o retrato do sistema brasileiro. “O que que o negro quer dentro da universidade, vai competir comigo?” E temos negros que são contra as cotas, porque ele foi o único num patamar de mil. “Ah, mas eu consegui e os outros que se lixem”. Só que ele foi um que a mãe trabalhou de manhã, de tarde e de noite, ou teve um padrinho que bancou uma escola de 1º e 2º graus, capacitação com maior qualidade, coisa que não é a realidade da maioria.

O racismo se expande em todos os setores. É no trabalho, no operariado. O lugar do negro é lavando a rua, limpando, lá é o lugar dele. Parece que ele foi desenhado para aquilo. Lá, a mulher negra, a mãe preta, é para criar o filho do branco, não para ser a dona da casa.

Até hoje “O negro é bom para fazer o carnaval. Mas eu convidei meus amigos negros para virem com o tambor, com a cuíca e fazer o samba”. Nada contra, adoro samba, mas estamos num contexto de qualificação e de uma sociedade que é racista. Sou uma mulher negra que vem da base, que sofro isso, sofri, me criei sofrendo isso.

BdF RS - Lembras algum caso especial em que esse racismo se manifestou contra ti?

Iyá Vera - Muitos. Lembro um que até hoje me dói. Eu tinha meus sete ou oito anos quando comecei a estudar. Filha de costureira negra. Meu pai era operário negro. Tinha orgulho de ser operário da (indústria) Hugo Gerdau. Ia trabalhar de gravata porque foi operário padrão um dia.  Então, a diretora da escola era uma mulher branca e minha mãe fez uma roupa para ela. Ela gostou da costura. Então, depois, minha mãe disse: “Este ano vais estudar no (colégio) Vicente Palotti. A diretora, dona Zoraida, te deu uma bolsa, a mãe vai costurar para ela e tu vai estudar lá”. Só que a minha mãe virou uma escrava do Instituto Vicente Pallotti. Virou a costureira da escola. Só que ninguém pagava nada para ela. 

BdF RS - Só pela troca da bolsa…

Iyá Vera - Sim, estudava lá. 

BdF RS - E as suas colegas eram brancas?

Iyá Vera - Eu era a única pretinha. Todo mundo sentava na frente. Era lá atrás que a professora me botava. Na minha frente sentava uma moça loirinha com duas tranças longas. E eu tinha o cabelo carapinha. Minha mãe penteava e repartia aqui no meio, fazia uma trança aqui, outra aqui. Ficava no repartido um desenho de uma cruz no meio. E a moça que sentava atrás de mim dizia “Vera Beatriz, com uma cruz na cabeça e uma berruga no nariz”.  E aquilo foi indo, foi indo, foi indo. Um dia eu peguei uma tesoura da minha mãe, botei na pasta e me sentei atrás da colega. Quando sentei, ela disse “Professora, a Vera Beatriz com a cruz na cabeça e a berruga no nariz sentou aqui no meu lugar”. Peguei a trança dela e paf... Deixei ela com uma trança comprida e a outra um toquinho. Chamaram a minha mãe. Aquilo me marcou até hoje. Vou viver 100 anos e não vou esquecer daquela cena, o quanto aquilo me machucava, me doía.

A nossa história não está nos livros escolares

Hoje a gente acha graça, mas naquela época... A nossa história não está nos livros escolares. Nós tivemos aí a lei 10.639, ela não é aplicada. Nós temos aí o decreto 6040 que não é aplicado. Então, a educação ela tem que partir desse princípio. O combate ao racismo não vai se dar com ações do movimento negro. Ajuda, pressiona, mas a educação tem que ter esse olhar. A educação tem que entender e fazer com que a sociedade, os parlamentos, com quem faz a lei... A gente avançou, tem exceções, mas tem muita coisa que ficou no “mise en scène”, vamos dizer assim. Não é uma política concreta de reparação.

BdF RS - Queria tocar no assunto da tradição de matriz africana. A senhora é uma mãe de santo, tem a sua casa, a 13 de Agosto, lá em Capão da Canoa. O Rio Grande do Sul, que é um dos estados mais racistas do país, é aquele que tem mais casas de terreiro, por volta de 65 mil. Tivemos uma entrevista com o (advogado do movimento negro) Onir Araújo, fizemos um corte dessa fala dele para o Instagram e houve mais de um milhão de visualizações, pessoas apoiando, outras questionando. Como se explica esse dado?

Iyá Vera - Quando chegamos aqui, o que aconteceu? Aqui (os negros escravizados) tinham que se aglutinar para poder sobreviver. E a única coisa que dava força e resistência era a fé. Apanhar até sangrar, comer o que eles não estavam acostumados. E um dos grandes desafios do povo preto africano foi o frio. Muitos morreram. A única coisa que hegemonizou foi a fé.

Hoje, temos a maioria da tradição de matriz africana aqui, juntando a Umbanda que os indígenas deixaram e misturaram, a outra linhagem que é de Exu, que são as divindades que vivem nas ruas e que vivem representando a luta do dia a dia. Hoje, o Rio Grande do Sul tem muita casa de tradição. Mas vamos fazer um percentual do que tem de povo branco na tradição de matriz africana, pela questão do religar, dessa religião que é o sincretismo. 

Temos não negros que estão na matriz africana e que dizem que não podemos falar que a matriz africana é do negro

BdF RS - Teria mais brancos que negros ou não?

Iyá Vera - Não tem mais, mas está muito próximo. Acredito que, mais uns 10 anos, talvez fique até pelo embranquecimento da própria raça. Temos hoje não negros que estão na matriz africana e que dizem que nós não podemos falar que a matriz africana é do negro. Tem vários debates, muitas polêmicas por isso. Somos o estado que tem maior número de terreiros, ou seja, das casas tradicionais, porque o terreiro tem a ver com o espaço geográfico. Tínhamos o tempo da senzala, hoje não temos mais, está reduzido em casas pelo crescimento da cidade. E não tem uma política, por exemplo, como ficou dos quilombos.

A matriz africana tinha que ter uma política na reparação, principalmente agora, que é a terra onde ela cultua a natureza. Nosso grande altar não é o São Jorge de Gesso, a Santa Bárbara de Gesso. Não são aqueles manequins, o vulto, a minha semelhança que tenho na minha casa tradicional. Porque a gente precisa, como a Igreja Católica precisa, a Nossa Senhora disso, Nossa Senhora daquilo, o Nosso Senhor Jesus Cristo, enfim, nós temos os nossos. Precisávamos ter um censo para podermos dizer que temos 65 mil casas. Nós temos em Porto Alegre aproximadamente, se pegarmos os 95 bairros, dividirmos pelo número de ruas que tem, quantas casas tem em cada rua. Então tem bairros que hegemoniza, tipo Restinga, são bairros enormes. Aqui a Zona Leste, Partenon, Lomba do Pinheiro, Zona Norte, e tem um número muito grande, Bom Jesus, Vila Jardim, a própria Restinga. Então é muita casa.

Quando a mídia vai inibir os programas que ridicularizam as tradições de matriz africana?

Quero que todos meus netos e bisnetos tenham o direito de estar na universidade. E, ao mesmo tempo (vou falar baixinho para ninguém ouvir), quero dizer que não sei se é essa universidade que precisamos. Não sei. Com esse olhar eurocêntrico, né? Com tudo aquilo que nos escravizou.

Quem sabe a gente inaugura um processo. Uma universidade que possa estudar a saúde mental do povo preto, de fato, a anemia falciforme. Que possa dizer com categoria que o câncer de próstata ele é maior no homem negro e que tem doenças que são específicas da mulher negra. A doença do povo preto que não está nas mesas de discussão, que é para a gente acabar com essa forma do extermínio disfarçado de política, que são políticas que não acontecem. Por que nas grandes mesas de discussão não está o meu povo? Não está a mulher negra, o jovem negro, o intelectual negro.

Por que que a matriz africana é tão… ah, mas eu não vou perder esse espaço, eu vou deixar um pedido aqui. Quando a mídia vai criar elementos para inibir todos os programas que ridicularizam as tradições de matriz africana? Vou deixar essa reflexão para a imprensa. Quando é que vão? Tem que ter um limite porque eles usam o nosso sagrado, quando não sabem que o nosso grande altar é a natureza. Nós jamais vamos querer destruir a água, destruir as matas, trocar por dinheiro as nossas árvores sagradas, porque toda folha é sagrada. Eu vou dizer que enquanto existir uma folha, existirá um Orixá.

* Esta é uma versão compactada da entrevista ao Podcast De Fato.


Edição: Ayrton Centeno