Rio Grande do Sul

ARTIGO

As maiores cheias no RS ocorreram nas mesmas datas

'Tenho certeza de que estas duas cheias têm uma relação muito estreita'

Brasil de Fato | Porto Alegre |
1941, carros dentro d'água como hoje - Reprodução

Foi inútil. “A água subia vertiginosamente invadindo canto e recantos sem nada respeitar”, relatou o Diário de Notícias. “Os diques improvisados, as fracas barragens não resistiam. Quando a resistência de uma centena de tijolos impedia a marca progressiva e arrasadora, as águas rompiam outros pontos que se procurava resguardar com todo o cuidado e medidas acauteladoras."

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O texto acima não é de nenhuma publicação atual, trata-se de parte de uma notícia do Diário de Notícias de maio de 1941, jornal de maior tiragem na época em Porto Alegre, reproduzida na página 60 do livro “A Enchente de 41”, de Rafael Guimaraens, publicado no ano passado (2023).

No canto direito superior da mesma página tem um quadro revelador: O Ritmo das águas:

2 de maio - 2,99 m
3 de maio - 3,25 m
4 de maio - 3,90 m
5 de maio - 4,13 m
8 de maio - 4,76 m

Esta foi a maior enchente registrada na história de Porto Alegre até o atual domingo, quando as águas atingiram a marca de 5,31 m e ultrapassaram todas as barreiras de proteção, menos o muro da Mauá, construídas com base no nível das águas atingidos naquela outra enchente. O muro da Mauá só teve rompimento em portões que estavam sendo mantidos sem uma manutenção cuidadosa pelos seus responsáveis.

Tenho certeza de que estas duas cheias têm uma relação muito estreita. Ambas aconteceram nas mesmas datas, se estenderam por todo o estado, foram causadas pelo fenômeno El Nino, trouxeram prejuízos enormes, e causaram perdas de vidas. Também tem uma relação com a destruição das matas galerias dos rios que cederam lugar para plantações de commodities. Isto já começara antes mesmo da época da 2ª Grande Guerra.

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O construtor do muro da Mauá, na década de 1970, foi o interventor Telmo Thompson Flores, engenheiro brilhante nomeado pelos generais. Ele havia trabalhado no Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS) que também foi responsável pelas construções dos diques de proteção contra a enchente de toda a região metropolitana. Ainda no DNOS ele construiu o sistema de irrigação do Arroio Duro, em Camaquã, que irriga todos os lotes do assentamento do Banhado do Colégio, primeira reforma agrária da história da República realizada ainda pelo também engenheiro Leonel de Moura Brizola.

Na época, pautado pelo Elmar Bones, fiz uma matéria sobre a inutilidade do muro da Mauá para o Coojornal. Ouvi diversos especialistas, entre outros professores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Ufrgs. Eles me disseram que haviam pesquisado a história climática e concluído que cheias como a de 1941 só aconteceriam no espaço de cem anos. Erraram por pouco. 1941 foi há 83 anos.


Edição: Katia Marko