Rio Grande do Sul

SÉRIE 8 DE MARÇO

Especial 8 de Março - Dia Internacional de Luta das Mulheres

O Brasil de Fato RS realiza uma série de entrevistas com mulheres que fazem da sua vida uma luta por um mundo melhor

Brasil de Fato | Porto Alegre |
Mulheres lutam pela vida, por direitos e por um país livre e democrático - Foto: Maria Objetiva / Fora do Eixo

Março é o mês de luta das mulheres. Foram elas que, em 1917, ainda na Rússia pré-revolucionária, marcharam contra a fome e pelo fim da I Guerra Mundial. Eram operárias. Naquele dia – 8 de março pelo calendário gregoriano – fizeram história. Com a Revolução, tornou-se a data “da mulher heroica e trabalhadora”. Desde então, o mundo adotou o 8 de Março.

Neste março, a data ganhou nova incumbência. Além da justa agenda reivindicatória, o 8 de Março transformou-se em palanque para apontar o aprofundamento da barbárie e a sombra da ditadura que novamente se projeta sobre o Brasil, agravada pela crise política em tempos de pandemia.

Para marcar a data, o Brasil de Fato RS realizou uma série de entrevistas com 15 mulheres que fazem da sua vida uma luta por um mundo melhor, com liberdade, igualdade e justiça. Confira:

 


 

Ser mulher, mãe, petroleira e sindicalista

“Não adianta nada tu ser mulher, chegar lá, e implementar o projeto do Bolsonaro. Algumas estão na direção e dizem na nossa cara que têm 38 anos de empresa, e que tem que vender mesmo, e que nós temos que ser vendidos junto (...) Precisamos cada vez mais da nossa consciência. Consciência do feminismo em si. Temos que demonstrar que estamos na luta e que vamos resistir, que nos mínimos espaços que conquistamos não vamos retroceder.”

Em um ambiente ainda marcado pela forte presença masculina, as mulheres vêm conquistando espaço. Contudo, representam ainda 16,2% do total de funcionários da Petrobras, dona do sétimo maior mercado de consumos de derivados do mundo. Apesar de reivindicar um espaço maior da participação feminina, a engenheira mecânica Miriam Ribeiro Cabreira, funcionária concursada da estatal desde 2007, observa que não adianta ter mulher no comando quando elas rezam a cartilha da privatização e opressão. Nessa entrevista, a diretora do Sindicato dos Petroleiros do RS conta um pouco da sua história, sobre a presença da mulher na empresa estatal e no sindicalismo, sobre a greve de 20 dias e a importância de manter a resistência.

>> Confira a entrevista com Miriam Ribeiro Cabreira


"Essa venda de refinarias só vai trazer perdas, tanto para o Brasil, quanto para o Rio Grande do Sul, no caso da Refap" / Foto: Fabiana Reinholz

 


 

“Para mudar o mundo precisamos mudar a forma de nascer”

"Parir é um ato político. Diante do nosso contexto social, onde o parto está tão desvalorizado, uma mulher conseguir parir diante de tantas adversidades, de tantas controvérsias, descrenças no poder feminino e na nossa capacidade de parir é para ser enaltecida e glorificada. Precisaremos ainda travar muitas lutas para termos nossas escolhas respeitadas e podermos de verdade protagonizar nossos partos.”
A doula Zezé Goulart fala sobre cura, amor e renascimento. “O parto é um rito de passagem, a mulher renasce". Segundo ela, os desafios são vários, muitas vezes começam na família que não respeita a escolha da mulher. “Numa cidade do tamanho de Porto Alegre, temos pouquíssimos profissionais que atendem parto".  Uma linda e inspiradora entrevista, verdadeira ode à força feminina.

>> Confira a entrevista com Zezé Goulart


"O parto é transformador. O parto é poder. O parto é um ato político também" / Foto: Arquivo Pessoal

 


 

Márcia Barbosa: ‘mulher é ainda vista como coadjuvante’

"Na ciência como em outras áreas da vida as mulheres são poucas e em particular são poucas em posições de destaque. No caso da Física já somos poucas no ingresso. Hoje no Brasil as alunas de graduação são um pouco mais de 20% dos estudantes e no topo da carreira somos 4%. Nas outras áreas como Saúde e Biologia as mulheres estão em pé de igualdade no ingresso, mas no topo não ultrapassam 25%. Por que tão poucas? Liderança é algo visto como masculino."

Professora e pesquisadora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Márcia Barbosa é atualmente diretora da Academia Brasileira de Ciências e membro da Academia Mundial de Ciências, e no mês de março foi eleita uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil em 2020, segundo lista divulgada pela revista Forbes. Em tempos de ataques à educação e à ciência e diante da pandemia do Coronavírus, Márcia ressalta o papel da ciência e fala sobre empoderamento feminino.

>> Confira a entrevista com Márcia Barbosa


"Sejamos unidas para enfrentar as constantes interrupções de homens quando estamos falando e debatendo" / Foto: Reprodução/Instituto de Física UFRGS

 


 

Mulheres indígenas: 520 anos de resistência e luta pela descolonização

"Falar dos corpos indígenas é falar da história do Brasil, dos corpos das mulheres no Brasil e da miscigenação, que é falado como uma coisa até romantizada. Assim como temos os estupros hoje, imagina naquele tempo, da chegada de invasão portuguesa e da colonização, de quanto as mulheres foram violentadas (...) nessa chegada dos padres, viam as mulheres indígenas, ao mesmo tempo que chamaram nosso corpo de vergonha, dessa nudez, tinha-se a imagem do indígena inocente e ingênuo, das mulheres indígenas enquanto ingênuas também."

Natural do Amazonas, filha de mãe descendente dos Tukanos e Kubeos, Raquel Kubeo cursa mestrado em Educação nas UFRGS. Em entrevista ao Brasil de Fato RS, ela fala sobre sua vida, identidade, luta indígena e retrocessos. Ressalta a existência desse corpo político, que ora se pinta ou não, de urucum, jenipapo, e lamenta que a questão de ancestralidade tenha virado uma questão de apropriação cultural.

>> Confira a entrevista com Raquel Kubeo


"A minha geração está nessa transição, de negação dos direitos e do poder público e o acesso à universidade por meio das cotas" / Foto: Fabiana Reinholz

 


 

Negra Jaque: 'O hip-hop é minha ferramenta de vida'

"Por isso estamos aqui podendo contar as nossas histórias para que outras mulheres não passem pelas mesmas coisas ou tenham um alerta. Porque a gente não pode definir sobre a vida da outra, julgar a outra porque ela está dentro do espaço de relação abusiva, está violentada. Você tem que ter um braço de acolhimento. Braço de julgamento ela já tem muitos. Eu passei por isso."

Professora, pedagoga, educadora popular, mãe, suas letras e sua própria vida são inspiração e força que apoia mulheres que sofrem violência em todos os âmbitos. É de rima e resistência o seu verso. É de cidadania e denúncia sua presença de MC, demarcando a presença feminina no cenário sexista do rap local. A rapper e produtora da Feira de Hip-Hop de Porto Alegre traz na voz, na fala, na pele, no cabelo a força de quem sente a guerra cotidiana do racismo e do machismo no morro, na vida. E responde com arte, com consciência, na troca de apoio entre mulheres.

>> Confira a entrevista com Negra Jaque


Confira um pouco do muito que Negra Jaque tem a dizer / Foto: Arquivo pessoal

 


 

“Nós somos o corpo coisificado, o corpo fetiche”, constata a trans Helena Meireles

"A vida de uma mulher trans... nós vivemos sob um status de subalternidade, somos o corpo coisificado, o corpo fetiche, e ao mesmo tempo aquele corpo que é agredido à luz do dia, aquele corpo que é invisibilizado. A minha vida inteira é uma vida de violência."

Moradora da periferia da capital gaúcha, professora da rede municipal, Helena Soares Meireles cresceu em uma família negra, com todas as questões que isso implica: a suposta virilidade do homem negro, o sustento do pai e o olhar sempre atento da mãe. Ela gostava de brincar com bonecas, mas como não as tinha, desconstruía seus playmobil e dava uma cara feminina. Após a ressignificação dessa existência no mundo, hoje luta contra o preconceito, o medo, as ameaças. Ao Brasil de Fato RS, ela fala de sua luta, da força da solidariedade e do afeto e da importância do coletivo na busca de uma vida melhor.

>> Confira a entrevista com Helena Soares Meireles


Afeto, entendimento, o apoderamento das origens e o coletivo Quilombelas são suas armas para mudar realidade de violência contra pessoas transexuais / Foto: Katia Marko

 


 

Zoravia Bettiol, uma mulher além de seu tempo

“Essa desigualdade social é criminosa, e nesses governos mais recentes, principalmente nesse em que estamos, a desigualdade está acentuadíssima e vai piorar porque esse senhor presidente odeia indígenas, quilombolas, LGBTs, mulheres. Imagina um presidente que odeia o ser humano, isso não deveria existir.”

Com olhar atento às causas sociais, culturais, ambientais, aos 84 anos, Zoravia Bettiol continua ativa nas lutas. Com um instituto que leva seu nome, já atuou, através da Ong Cristal Florido, em comunidades carentes. Filha do meio, de três irmãos, e mãe de outros três, ao escolher as artes plásticas, depois de um breve susto, recebeu todo apoio e estímulo da família, em uma época que as belas artes muitas vezes serviam apenas para arranjar um bom casamento. Ao Brasil de Fato RS, ela fala de feminismo, amor, arte e contexto político social.

>> Confira a entrevista com Zoravia Bettiol


"O período mais marcante do feminismo foi na década de 1960, tinha uma série de reivindicações, algumas coisas mudaram" / Foto: Fabiana Reinholz

 


 

“Temos uma sociedade escravocrata”, afirma juíza que põe em evidência sua negritude

“Quanto mais pessoas partindo de diferentes lugares, de diferentes espaços, mais visões diferentes sobre o mundo vamos ter. Se você só tem homens brancos na magistratura, você vai ter a visão e a vivência e a experiência do homem branco no mundo. A experiência de um homem negro jamais será igual a de uma mulher negra no Brasil, experiência de homem branco jamais será igual de uma mulher negra no Brasil.”

Karen Luise Vilanova Batista de Souza não é a primeira juíza negra do Estado do Rio Grande do Sul, houve uma ou duas antes dela, porém sua atuação e representatividade crítica da magistratura faz com que seja apontada como tal. Em entrevista ao Brasil de Fato RS, ela revela que a Karen que entrou em 1999 no Judiciário, com cabelo alisado, curto, não é mais a mesma. Hoje, assume seus cachos, e afirma cada vez mais sua identidade.

>> Confira a entrevista com a juíza Karen


"O dia 8 de Março para uma mulher negra é um 8 de Março completamente diferente daquele de uma mulher branca" / Foto: Katia Marko

 


 

Tânia Farias: Uma artista em desconstrução

“Por que essa coisa permissiva em relação ao corpo da mulher o tempo inteiro? Isso está na nossa existência, toda hora eu tenho que dizer: Olha eu não sou uma vítima especial, eu não sou a maior vítima da paróquia, não, eu só sou mais uma, porque enquanto estamos aqui conversando, tem mulher sendo violentada, não é brincadeira, não é da boca para fora... Isso acontece toda hora com mulheres, e somos mortas, é algo corriqueiro no nosso país.”

Uma artista em desconstrução, essa é uma definição bem aplicada quando se trata da atriz/atuadora que há mais de duas décadas integra a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Em entrevista ao Brasil de Fato RS, Tânia falou sobre o atual momento, a força das mulheres, o processo de construção e a importância da existência da Terreira da Tribo, um espaço como ela descreve de arte, descolonização corporal e mental, e que convida a construção de um outro pensamento, livre e libertário.

>> Confira a entrevista com Tânia Farias


Tânia Farias integra a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, principal grupo de teatro de Porto Alegre, há mais de duas décadas / Foto: Fabiana Reinholz

 


 

Não olhe: É sobre sexo!

“Quando a gente analisa os movimentos de prostitutas vê que, embora muitas feministas os hostilizem, elas fazem um movimento feminista desde sempre, que em muitos sentidos é até pioneiro, como na questão do se vestir como quiser e da maternidade compartilhada, essa última uma questão que não se trata muito quando se fala em prostitutas.”

Trabalhadora sexual, feminista, ativista pelos direitos das prostitutas, colunista do site Mídia Ninja e autora do livro Putafeminista, Monique Prada fala ao Brasil de Fato RS sobre a realidade da profissão e sobre ser feminista nesse contexto.

>> Confira a entrevista com Monique Prada


Para a entrevistada, é importante pensar a prostituição a partir do feminismo e o feminismo a partir do que pensam e como agem as trabalhadoras sexuais / Foto: Arquivo Pessoal

 


 

Feminicídio: A pandemia de violência contra as mulheres no RS segue elevada

"A ausência de casas e abrigos é o principal problema hoje. Estamos discutindo não só a violência, e o seu fim, por que elas morrem. Elas apanham, sofrem a violência e retornam para os seus lugares de origem, para casa, o local de violência, isso já sabemos. Mas por que elas estão morrendo mais?"

O Brasil de Fato RS conversou com a advogada feminista e especialista em Direitos Humanos, Ariane Leitão. Coordenadora da Força-Tarefa Interinstitucional de Combate aos Feminicídios criada pela Comissão de Segurança e Serviços Públicos da Assembleia Legislativa do RS, ela fala da situação no Estado e da corresponsabilidade do poder executivo nos casos de feminicídio.

>> Confira a entrevista com Ariane Leitão


Advogada feminista e especialista em Direitos Humanos, Ariane Leitão concedeu entrevista ao Brasil de Fato RS / Foto: Fabiana Reinholz

 


 

Presídio feminino Madre Pelletier: ‘Minha experiência é que não há reinserção’

"Não é novidade que o maior número de prisões no Brasil, inclusive das mulheres, é como traficante, com o tráfico de drogas. Para mim é isso, a política, o sistema de Justiça Criminal, que aumentou em demasia a questão das mulheres aprisionadas."

O Brasil de Fato RS conversou com Daiana sobre a funcionalidade do Madre, a precarização do sistema e os lapsos do mesmo, e um pouco da vida das mulheres dentro do presídio. Ela conta que o interesse em trabalhar dentro do sistema penitenciário surgiu quando ainda era adolescente, ao assistir uma reportagem sobre o trabalho do profissional de Serviço Social dentro de uma penitenciária no Rio de Janeiro. Apesar de toda a precariedade do sistema, com salários parcelados por mais de cinco anos, Daiana mantém ainda, assim como seus colegas, vivo o trabalho.

>> Confira entrevista com Daiana Maturano Dias Martil


"Nosso país prende muito, então vamos tentar fazer uma redução de danos" / Foto: Katia Marko

 


 

8 de março: A luta das mulheres pela defesa dos direitos e contra os retrocessos

37.381 ameaças, 20.989 lesões corporais, 1.714 estupros, 100 feminicídios consumado, 359 tentativas. Esses são os indicadores de violência contra as mulheres no Rio Grande do Sul, constantes no Observatório Estadual de Segurança Pública. A luta contra o feminicídio e pelo fim da violência contra a mulher será uma das principais pautas deste 8 de março.

Para conversar sobre o assunto, o Brasil de Fato RS realizou uma roda de conversa sobre o Dia Internacional das Mulheres. Conduzida pelas jornalistas Telia Negrão, do Coletivo Querela Jornalistas Feministas, e Katia Marko, editora do BdF RS e também integrante do Querela, teve como debatedoras Gabriela Cunha, da Marcha Mundial das Mulheres, Salete Carollo, da direção nacional do MST, e Telassim Lewandowski, do Coletivo Feminino Plural.

>> Confira a roda de conversa, também disponível em vídeo


Debate ocorreu na sede do Coletivo Feminino Plural e está disponível também em vídeo / Foto: Fabiana Reinholz

 

 

Edição: Katia Marko e Marcelo Ferreira